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terça-feira, julho 4

Funeral

A tia que havia de ser minha companheira veio em meu socorro, consolando-me, afastando-me dali, mas de um momento para o outro,  fiquei rodeada de pessoas que falavam ao mesmo tempo, me interpelavam, davam beijinhos e abraços, se apresentavam. Todos queriam saber tudo dos meus pais, dos meus irmãos, do país…
Quando a curiosidade ficou mais saciada e a noite já era madrugada muitos foram saindo, ficando apenas os filhos e familiares mais chegados a fazer companhia. De vez em quando alguém começava a rezar e então escutava-se um coro melancólico interrompido por ais fungos e assoadelas.
A minha tia, pessoa muito simples e bondosa, considerou que eu devia descansar um pouco, pois a viagem tinha sido muito longa e cheia de emoções, me conduziu ao quarto onde eu ia passar a noite.
Era uma habitação grande, de paredes caiadas e piso de cimento, e estava atulhado com os móveis que tinham sido retirados da outra sala para a poder transformar numa capela funerária. Estava dividido com um cortinado de flores azuis, já desbotadas. 
Nesse momento tive um dejá vu…fui transportada para um outro quarto, muitos anos atrás, na terra que eu acabava de deixar, onde passei as primeiras noites sem a companhia da minha mãe.
Sentia-me extenuada depois de tantas emoções, mas demorei a adormecer.
 Ainda não conseguia arrumar as ideias e analisar tudo o que tinha acontecido, e os sons da noite, tão diferentes, me distraiam. Era o cantar das águas que caiam das rochas e se derramavam nas levadas, o rumor do mar de Inverno, a bravura das ondas que remexiam as pedras do fundo para depois lançar-se, impetuosas e salgadas na praia, e cujo som ecoava na alta rocha reforçando o seu poder. Era o canto das cagarras que eu nunca tinha escutado, aves nocturnas que, segundo os pescadores, anunciavam, com o seu grito estridente, peixe p´ra amanhã, peixe p´ra amanhã…
Tudo era tão estranho e natural ao mesmo tempo, estava tão cheia que não sentia nada. Lembrei-me dos meus irmãos, dos meus pais, agora tão longe, e senti um aperto no peito.
 Começava a entender melhor o que sentiam aqueles que um dia tinha deixado a família e partido. Mas era diferente, eu tinha voltado para o lugar de onde o meu coração nunca tinha saído.
O enterro foi uma cerimonia simples, sem choros ou grandes demonstrações de pesar.
 Era a lei da vida. O féretro foi transportado em ombros por alguns homens que percorreram rapidamente a centena de metros que separavam a igreja do cemitério.
 Um cemitério pequeno e florido, à beira do mar, que mais parecia um jardim, apenas o cruzeiro que dividia os talhões e os altos ciprestes com cheiro a maresia, recordavam a finalidade daquele lugar. Muros baixos e brancos e uma porta de ferro, sempre aberta, convidavam a entrar quem passava e lembrava o destino final a que todos estamos condenados.