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terça-feira, julho 4

Chegar 2

 Lembrei-me da minha avó, motivo desta viagem, e perguntei por ela. Tinha partido na manhã de esse dia, não esperou pela minha chegada, mas o seu corpo vazio e inerte, permanecia, para que eu a pudesse acompanhar até a sua última morada.
 Sobressaltei- me. Constatei que nunca tinha ido a um enterro. Interroguei-me se saberia comportar-me numa situação dessas. O meu coração pulou ao me lembrar que não tinha ido preparada para um funeral…que roupa havia de usar? Na azáfama dos últimos dias em casa dos meus pais consegui comprar alguns tecidos e fazer duas ou três fatiotas para aumentar o meu vestuário, que não era grande coisa. Até fiz um casaco bem à moda, em tecido xadrez, mas não tinha pensado que iria precisar de roupa para um funeral. Bem me podia desculpar pelo facto de viver num clima muito quente onde o preto era pouco usado…
Estas preocupações desapareceram quando, ao passar um furado e depois uma curva acentuada, começamos a ver algumas luzes dispersas e alguém disse- Chegamos ao Jardim!
A emoção foi tanta que todos os pelos se me eriçaram e o meu corpo entrou em alerta máximo. Todos os sentidos se aguçaram e o coração batia tão depressa que nem o sentia.
Passava da meia noite, a chuva miudinha molhava a calçada onde eu escorregava, e os tacões finos dos sapatos se encaixavam entre as pedras obrigando-me a equilibrar-me penosamente, fazendo movimentos estranhos para não cair. Ao ver a minha dificuldade as duas primas que me tinham ido buscar ao aeroporto, entre risos, me seguraram pelos braços de tal maneira que os meus pés quase não tocavam no chão e era como se flutuasse no ar.
Consegui perceber que a aldeia era minúscula e a iluminação das ruas fraca. Os candeeiros, muito afastados uns dos outros, apenas transmitiam uma luz baça riscada pelas gotas de chuva fina.
Ao chegar à pequena vereda que dava acesso á casa da minha avó, compreendi de que a minha chegada era um acontecimento para a aldeia.
 Desde o começo da vereda até à casa, que agora me parecia tão pequena, as pessoas se acotovelavam abrindo alas à minha passagem. 
Desejava que a terra me engolisse, mas usei o meu velho truque: quanto mais insegura e assustada me sentia, mais me mostrava firme e agia de um modo que parecia natural e simples. Como uma rainha olhava à volta e sorria para todos, isso resultava sempre, e lá, bem no fundo, desfrutava o meu momento de protagonismo.
 Como se não bastasse ir ao encontro da minha avó falecida, à espera num caixão aberto, tinha que enfrentar todos aqueles olhares curiosos e sorridentes “olá, eu sou a … sou tua prima. Olá, eu também sou tua prima, conheces-me? Era mesmo assim, ali todos eram primos. Aquele momento parecia tudo menos um velório.
Entrei com alguma dificuldade no pequeno quarto de paredes caiadas e teto alto revestido de madeira, havia cadeiras encostadas à parede onde se sentavam as pessoas mais velhas, ou aquelas que eram consideradas importantes, os restantes estavam de pé e a medida que eu passava se iam afastando, abrindo uma clareira que deixava à mostra o pequeno caixão no centro da sala.
 Percebo que todos estão curiosos para ver a minha reação, mas eu mesma não sei qual será.

Um caixão simples, de madeira leve revestido com tecido preto, dentro dele, um corpo franzino e velhinho. Achei que devia derramar algumas lágrimas e esforcei-me para isso, embora o corpo que via naquela caixa negra, me fizesse pensar apenas numa embalagem vazia.
 Chorei pela memória que tinha daquela mulher ao olhar para o seu rosto de cera e dei-lhe um beijo ao de leve. Não conseguia olhar para mais ninguém, mas sentia o murmúrio dos presentes. Naquele momento eu era uma ilha, o resto era mar que me rodeava.