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quarta-feira, abril 12

História em PedacinhosII

  Nesse dezembro de 1973 já cheirava a Natal e o ar estava impregnado de sons próprios da época. Ouviam-se as gaitas e villancicos em todas as ruas, e as casas, de portas sempre abertas, deixavam escapar o entusiasmo e alegria natalicia.
Naquelas parágens o Natal era quente e propício para férias na praia. Na falta de pinheiros e neve, improvisava-se com ramos secos, pintados de branco, engalanados com fios de algodão, para fazer lembrar a neve,e bolas coloridas e brilhantes. É certo que haviam também árvores artificiais, verdes, brancas, prateadas, e até pinheiros verdadeiros importados do Canadá, para quem tinha posses. Para nós era muito divertido preparar os ramos secos, pintá-los e enfeita-los. Para os que vivem nos trópicos, o verdadeiro Natal devia ser frio e com muita neve, igual aos postais que se distribuiam na época e os filmes da TV.
E foi neste ambiente festivo que recebemos uma triste notícia. Eu não podia saber que a carta chegada nesse dia havia de mudar radicalmente a minha vida, uma notícia trágica que se transformou num motivo de espectante alegria.
A minha avó estava doente, e dado a idade já ser muito avançada, era de esperar um fatal desenlace. O remetente da carta, a irmâ da minha mãe, lembrava que, se alguém a quisesse encontrar com vida, tinha que se apressar.

Eu ja pouco me lembrava da minha avó, ténues recordações aqueciam o meu coração, mas já não conseguia visualizar o seu rosto.
Mostrei-me muito triste. Subitamente a vontade de a ver se tornou numa necessidade insuportável. Era mais do que isso: sentia que tinha que ir.
Não contava que o meu pranto e teatral angustia fizessem eco no coração dos meus pais, pois sabia que a situação económica continuava difícil, no entanto as minhas preces foram ouvidas, e quando dei por mim, estava no aeroporto pronta a iniciar a viagem que me havia de devolver à ilha, dezoito anos depois.
Tinha agora 24 anos, mas continuava sendo uma criança. Uma criança mascarada de mulher.