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sábado, fevereiro 19

Coração em curto-circuito...


Quem é que nunca pensou na morte, na sua própria morte? Confesso que já pensei muitas vezes, mas era uma morte de vingança, onde eu ficava de espectadora, observando tudo o que acontecia à volta do meu cadáver, onde imaginava as reacções dos que me rodeavam e, sobretudo, uma morte da qual eu podia regressar se achasse que valia a pena ou se não suportasse a dor dos que amo devido à minha ausência. Era uma não morte.
 Mas quando ela quase chega de verdade é algo bem diferente. E falo da minha morte, que a dos outros sei senti-la de outra forma.
Quando dei entrada naquele enorme hospital sabia que algo não estava bem, mas como sempre, fiquei do lado de fora, no entanto era eu quem estava sendo levada em correria para a sala de reanimação, mas era como se não fosse. Estava completamente lúcida, ou pelo menos eu acreditava que sim  Na sala de urgência três médicos estavam á minha espera, e as respectivas enfermeiras, sinto que me  atiram rapidamente  para outra cama e  alguém começa  a  retirar as minhas roupas, reparo que eram uma mulher e um homem, vestem-me umas cuequinhas de plástico e uma bata que não tapa nada.Reparo no médico russo, um louro  gorducho  com óculos e com um ar muito simpático que não parava  de falar conmigo.  nesse momento penso que sempre sonhei ser despida por  um jovem espadaúdo, mas não daquela maneira…e desatei às gargalhadas! Ainda ouvi, uma voz de mulher dizer: “ainda bem que está bem-disposta!”
Olho à minha volta e vejo o rosto de dois dos médicos que entretanto tinham atacado as minhas mãos e braços á procura das minhas veias. Um deles tinha o inconfundível sotaque brasileiro, de português com açúcar, o russo continuava debruçado sobre o meu corpo, dando indicações, ordens , tentando me fazer rir, o que não era difícil, eu só me imaginava dentro de uma série televisiva, no Greys Anatomy ou o Dr House… e cheguei a perguntar por ele..
E o médico russo me avisa que vou sentir uma dor muito forte no peito mas que não devo ficar nervosa, que é para estabilizar a corrente eléctrica do meu coração.
Afinal eu tinha electricidade a mais!
Vai a primeira dose, não sinto nada. Quando quis falar percebi que em lugar de voz emitia apenas uma espécie de urro, assustei-me, reparei no rosto apreensivo da enfermeira que carinhosamente segurava a minha mão entre as suas, nesse momento pensei que estava morrendo mesmo, mas o medo durou pouco tempo, em seu lugar surgiu uma grande curiosidade, saber o que está do outro lado. Alguns segundos depois mais uma dose, desta vez parecia que o meu coração ia explodir, mas pouco a pouco a dor foi desaparecendo e os batimentos cardíacos passaram a ser mais regulares.
Fiquei algo decepcionada, afinal não ia saber o que havia do lado de lá…
As horas em que fiquei no hospital, em observação, deram tempo para reflectir,
 Me dei conta então que a passagem da vida para a morte é muito fácil, em realidade não custa nada, é bem mais fácil do que nascer. Creio…
Antes de  ter alta o médico brasileiro me informa que terei que tomar ,religiosamente, um comprimidinho todos os dias ou o coração  entra em curto-circuito… essa dependência é que me mata!