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sábado, abril 3

Outro excerto delicioso: O sim do não

Outro excerto delicioso: O sim do não

Nas zonas rurais onde trabalho existe uma curiosa maneira de responder às perguntas formuladas por um estranho. Sobretudo se essas questões solicitam a dicotomia do “sim” e do “não”. Resolve-se da seguinte maneira: responde-se sempre sim. O “não” simplesmente não se diz.
Esta forma de retórica (ou melhor, esta ausência de retórica) traduz a nossa condição geográfica: somos já do Oriente. Não negar é uma educação. Mas esta elegância de trato cria, por vezes, problemas aos que necessitam de respostas claras e concisas. É o meu caso quando chego a uma zona litoral e necessito de organizar o meu trabalho. À minha pergunta:
-A maré está a subir?
A resposta já aconteceu assim:
Está a subir, sim senhor, mas já começou a descer há mais de duas horas.
Outras vezes, quando a minha intuição me dá garantias de boletim meteorológico, avanço:
-Amanhã vai chover!
Recebi, por vezes, a seguinte resposta:
-Vai chover, sim senhor, mas a chuva, essa, só vai começar a cair na próxima semana.
Uma outra vez, tendo por missão identificar a fauna numa floresta, perguntei a um velho que em acompanhava:
_Isto que está a cantar é um pássaro?
-É, sim.
-E como se chama este pássaro?
-Bom, este pássaro, nós aqui em Niassa não lhe chamamos bem-bem pássaro. Chamamos de sapo.
Num balanço da aplicação do lema de governação Por um Futuro melhor a televisão de Moçambique fez um inquérito popular. A pergunta era:”Sente que a sua vida está a melhorar?” Um cidadão respondeu assim:”Está a melhorar, sim senhor. Mas está a melhorar muito mal.”

Mia Couto,"E se Obama fosse africano? E outras interinvenções". Caminho e outras margens, 2009