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terça-feira, abril 27

O bom partido


Certa vez fomos visitar um casal conterrâneo de cuja mulher a minha mãe tinha sido amiga no tempo da aldeia. Esta jovem casara com o que chamavam um “bom partido”que é o mesmo que dizer que era uma pessoa com dinheiro, o que só por si lhe outorgava qualidades pois garantia que a família não ia passar necessidades. Este era um homem muito mais velho do que ela e levou-a para a Venezuela pouco depois do casamento.
A minha mãe ficou chocada ao ver como vivia esta família. Ele, o marido, tinha ainda a mesma bodega que sempre tivera e de onde retirou a sua fortuna, embora proprietário de algumas casas espalhadas pela cidade, as quais alugava, vivia com a mulher e os três filhos nas traseiras do negócio, um lugar escuro e abafado, atafulhado com estantes de madeira estafada abarrotadas de alimentos e todo tipo de objectos, desde o café e o arroz ao querosene ou a creolina.
 Encontramos um homem gordo e calvo, o nariz grosso e arroxeado aumentava a palidez doentia do rosto, os pés volumosos que se mostravam através das alpercatas e o andar pesado deixavam adivinhar umas pernas inchadas e doentes, que nos recebeu com uma certa indiferença, e sem se afastar do comprido balcão de madeira, chamou a mulher que se encontrava no fundo da casa.
Logo vimos uma mulher ainda jovem que parecia ter sido bonita mas que estava com a pele fatigada prematuramente e muito pálida como a de alguém que pouco vê a luz do sol. Embora sorrisse e se mostrasse genuinamente satisfeita pela nossa presença, existia na sua expressão uma apatia e um descontentamento assimilado.       
O marido não lhe permitia sequer que trabalhasse na loja pelo que a sua vida era passada na escuridão dos seus aposentos apenas na companhia dos filhos. A casa resumia-se a dois quartos e uma cozinha grande que fazia as vezes de sala de estar e sala de jantar onde, além do fogão e o frigorífico, havia uma mesa de madeira coberta com uma toalha de plástico, um sofá muito gasto e felizmente, uma televisão. As crianças, que estavam entre os seis e os dez anos, pareciam acanhadas, não disseram uma única palavra durante toda a visita, limitaram-se sorrir timidamente ou a abrir os olhos com espanto. Tal como a mãe, tinham cabelos e olhos muito claros e feições suaves, de uma beleza quase etérea e muito carente de sol.
Continúa...