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sábado, abril 10

Adolescência I - Vizinhos ruidosos


Dizer que voltamos à mesma cidade não é muito correcto. Na verdade voltamos à mesma região e ficamos nos arredores da maior cidade portuária, La Guayra , num bairro Chamado Los Hornitos, que quer dizer :os forninhos, e que fazia jus a esse nome de tão intenso e abafado era o calor que  ali se sentia.
A casa em que fomos morar se situava numa rua que dava acesso um morro muito populoso onde a terra vermelha e seca se levantava em nuvens de poeira e os terrenos baldios estavam ocupados por arbustos raquíticos de seiva malcheirosa chamados cajuí, e lixo. Não obstante ali se podiam encontrar todo tipo de habitações, desde casas mais ou menos bem construídas de blocos e telhas com jardins interiores a casas de cartão e latas e os seus habitantes tinham as mais variadas procedências e formas de vida e heterogénea condição económica.
A nova casa era um rés-do-chão que tinha um pequeno jardim em que o primeiro andar era ocupado pelos proprietários, um casal ainda jovem e com vários filhos, uns dele, outros dela e alguns em comum, que não eram exactamente o modelo de vizinhos pacíficos.
 Mesmo que durante o dia fosse amotinada pelo barulho das crianças e os gritos da mãe que tentava impor um pouco de sossego, depressa nos demos conta que as sextas e os sábados eram os dias – noites - a temer. Quase invariavelmente o fim-de-semana começava em festa, com a música em altos brados e bailes tão animados que faziam estremecer o soalho deles, que era o nosso tecto, onde a bebida corria livremente. A festa penetrava na madrugada e quase sempre acabava em zaragata entre o casal. Podíamos ouvir o som das pancadas que davam um ao outro, os gritos de dor e insultos mútuos misturados com o ruído de vidros que se partiam e móveis que se estilhaçavam no chão. Nesses dias apenas tínhamos que ficar calados á espera que tudo acabasse.
De nada valia reclamar porque isso só piorava a situação.
Foi o que aconteceu quando o meu pai se queixou ao senhorio escandaloso e lhe pediu que tivesse alguma consideração pelos vizinhos mas só conseguiu que, no fim-de-semana seguinte, em lugar discutir um com o outro como era habitual, o casal e alguns amigos seus se entretivessem lançando garrafas desde o primeiro piso que se espatifavam junto à nossa porta de entrada, enquanto no gira-discos a orquestra Los Melódicos reproduzia animados sons de merengue e salsa em altos berros…