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segunda-feira, março 1

Viola, velas , galinhas alvoroçadas e medo...


O meu pai sabia tocar viola e tinha começado a me ensinar a tocar algumas notas, assim como o padrinho do meu irmão, que acompanhava o meu pai em algumas das visitas, me ensinava algo de bandolim. Por vezes, quando eles vinham juntos até casa, tocavam em conjunto e cantavam as canções de que se lembravam das romarias de Natal. Eram momentos de alegria que se misturavam com a tristeza da saudade da sua aldeia.
Entre partida e regresso eu treinava, ora na viola, ora no bandolim, verdade seja dita, nunca tive grande habilidade nesse mister, mas era aplicada.
Havendo tantos quartos naquela casa eu mudava constantemente o sítio onde dormia até ao dia em que a viola do meu pai que estava pendurada de um prego num dos quartos mais afastados, tocou sozinha. Já era muito tarde e eu começava a pegar no sono quando a viola deu alguns acordes, tal e qual como se alguém passasse os dedos pelas cordas e a fizesse vibrar. Fiquei pregada à cama, aterrorizada não me atrevi a por os pés no chão, passei o resto da noite tentando encontrar uma explicação para o acontecimento e só me tranquilizei ao chegar à conclusão improvável de que possivelmente uma lagartixa ou uma osga tivesse passado pela parede e por cima da viola…
 Não chamei pela minha mãe para não a assustar, só no dia seguinte comentei o sucedido, mas ambas desvalorizamos o caso, contudo não voltei àquele quarto.
 Outra vez acordamos com as galinhas em grande alvoroço, sentíamos o bater das asas e o cacarejar nervoso das aves que pareciam estar tentando fugir de alguém, ou algo. Pensamos que algum ladrão tivesse entrado no galinheiro para roubar algumas, ou algum animal, talvez uma ratazana ou uma cobra as estivesse atacando. Inicialmente não tivemos coragem para ir ver o que se passava uma vez que para chegar até ao galinheiro tínhamos que abrir a porta das traseiras e isso nos deixava numa posição vulnerável caso se tratasse de um gatuno, mas como aquele rebuliço parecia nunca acabar ganhámos alguma coragem, e armadas com velas acesas, tal como se fosse uma procissão vamos a minha mãe e eu, mais os meus irmãos, que se acotovelavam atrás de nós, verificar o galinheiro.
Com a nossa proximidade as galinhas começaram a aquietar e antes que pudéssemos ver fosse o que fosse, sentimos nitidamente um sopro, embora não houvesse nem uma ligeira brisa, que apagou todas as velas e por mais que a minha mãe tentasse não conseguiu acender novamente as mesmas. Os fósforos se apagavam antes de chegar ao pavio… o terror ia em crescendo e então voltamos em correria para a casa fechando a porta rapidamente. A incerteza e o medo originaram, mais uma vez, uma noite de insónia.
Ainda