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domingo, março 21

Tempos de chá sem açúcar IV-Sim, a casa veio abaixo!


Estava escrito que havíamos de ficar pouco tempo naquele lugar. Desde a nossa chegada que não havia parado de chover, embora variando de intensidade, por vezes eram fortes aguaceiros, outras vezes a irritante chuva miudinha que vinha sempre acompanhada de um nevoeiro baixo que apagava a paisagem. Mas depois foi um forte temporal com raios e trovões em que a chuva caia forte e sem descanso, dia e noite. Foi assim durante três ou quatro dias.
A casa onde morávamos estava à beira da estrada junto ao declive que descia até ao vale. Como era habitual nos tempos de chuva, a luz eléctrica começou a falhar intermitentemente até que nos deixou às escuras toda a noite. Também como já era habitual, a minha mãe se aninhou com todos os filhos num quarto tentando tranquilizar-nos com histórias, verdadeiras ou inventadas, à luz vacilante de uma vela.
Amanheceu sem chuva, o dia estava claro e parecia que, finalmente, o tempo tinha melhorado. Mas qual não foi o nosso espanto ao constatar que uma larga racha tinha cortado a casa a meio, desde o chão até ao tecto, e que o lado que dava para o precipício se afastava da parte que estava sobre terra firme e começava a escorregar pela encosta. Apenas tivemos tempo de salvar algumas panelas e o fogão e alguma comida que estava na cozinha, pouco mais… Nada mais havia que pudéssemos fazer…
Lembro-me que a minha mãe se deixou cair ao chão, quase à beira do precipício, tomou a minha irmã pequena ao colo e começou a lhe dar de mamar, em silêncio, eu e os meus irmãos nos sentamos junto dela, e ficamos ali, a contemplar como a casa de banho, a cozinha, um dos quartos e o frigorífico deslizavam pela encosta, ao princípio lentamente, depois cada vez mais rápido até chegar perto do lindo vale que, agora, já não tinha nenhuma graça…
Do que sucedeu depois pouco me lembro, sei que ainda ficamos na casa dividida algum tempo, não sei se dias ou semanas, mas sei que foram os tempos de chá sem açúcar, literalmente.

Agora estávamos de volta ao ponto de partida, voltamos à mesma cidade de onde tínhamos saído, voltamos á civilização, à proximidade dos outros conterrâneos, a um lugar que já conhecíamos, às caras que nos eram familiares, mas carregados de uma experiência que nenhum deles tinha, para o bem ou para o mal. Dois anos tinham passado mas parecia uma vida. Se eu voltasse à escola teria muitas histórias verdadeiras para contar, mas certamente ninguém acreditaria