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quinta-feira, março 18

Tempos de chá sem açúcar III- “Eis um tempo com bico de milhafre e asas de rapina…”


Os primeiros raios de sol dissiparam o nevoeiro deixando á vista uma paisagem deslumbrante! A estrada onde nos encontrávamos se afastava serpenteando as altas colinas enquanto descia até um amplo e profundo vale onde os talhões de terreno estavam divididos geometricamente. Alguns tinham culturas de cereais, legumes, flores, e outros eram apenas pasto onde se passeavam enormes vacas e bois. A paisagem transportava para os Alpes europeus devido à profusão de pinheiros e vegetação própria de climas mais frescos, era diferente de tudo o que tínhamos visto até então.
A encosta que descia desde a altura da estrada estava coberta com erva baixa dando uma sensação de suavidade em que apetecia se deixar escorregar até ao fundo. Nas suaves encostas ao longo dos caminhos abundavam as plantações de café e escondiam as casas dos proprietários ou caseiros. Tudo parecia tão ordenado e sereno e transmitia uma sensação de paz.
Contudo os tempos não eram serenos, bem pelo contrário, eram tempos muito críticos. O trabalho começava a escassear e o meu pai ficava procurando durante semanas alguma obra, aceitando qualquer pequeno serviço para trazer algum dinheiro para casa. Foram os tempos de chá sem açúcar, como lhe chamou a minha mãe, tal era a necessidade das coisas mais elementares para a alimentação.
A minha mãe descobriu que estava esperando bebé novamente. Ela envelhecia a olhos vistos e expressão do seu rosto era cada vez mais triste e céptica.
A pessoa que nos devia entregar as chaves da casa não apareceu durante esse dia e tivemos que procurar nas casas à beira da estrada e nas que se escondiam entre os cafezais alguém que soubesse ou tivesse uma casa para alugar, mas foi numa pequena bodeguita, ou mercearia, a algumas centenas de metros de distância, que encontramos uma pequena casa disponível, não obstante exigiram dois meses de caução, o que deixou a minha mãe em mãos lençóis pois ficou com muito pouco dinheiro disponível para a alimentação, contudo o mais importante no momento era ter um lugar onde meter os poucos pertences e onde pudéssemos estar abrigados da chuva o frio.
As casas estavam distribuídas ao longo do caminho mais ou menos afastadas umas das outras o que fazia com que nos sentíssemos afastados do mundo. A chuva que tinha começado a cair na noite da nossa chegada continuou durante o dia aumentando sempre de intensidade. Na verdade choveu quase durante uma semana, mas nos momentos que parava de chover aproveitávamos para dar alguns passeios por entre os cafezais, a minha mãe gostou daquele lugar que lhe fazia lembrar as paisagens conhecidas da Europa, seria feliz passeando por dentro das matas apreciando os frutos vermelhos do café ou tropeçando com algumas vacas malhadas pelos caminhos. Seria se tivesse mais pão para os filhos e se o meu pai estivesse lá…