Google+ Followers

quarta-feira, março 17

Tempos de chá sem açúcar II - Km 4, carretera de San António de Los Altos


Chegamos ao nosso destino já era noite alta.
 Estava uma noite escura, a lua se escondia por entre um nevoeiro pesado e caía uma chuva miudinha, na estrada mal iluminada apenas de vislumbrava o clarão baço e espaçado onde se encontravam alguns postes de iluminação ou de alguma das casas mais próximas.
O camião parou à beira da estrada, no lugar indicado. A tabuleta dizia: km 4. Deveria estar á nossa espera alguém para fazer entrega das chaves da nossa nova habitação, mas a verdade é que não se via vivalma.
Esperamos algum tempo mas ninguém apareceu. O motorista e o ajudante ficaram impacientes, fazia-se tarde e tinham que regressar a casa, já não queriam esperar mais, começaram a colocar no chão, na beira da estrada, os nossos pertences, exigiram o pagamento e foram embora… Eram 11 horas da noite, isso eu lembro muito bem.
A chuva miudinha começava a transformar-se em gotas grandes e frias, era necessário encontrar abrigo. A minha mãe e eu usamos a frágil mesa da cozinha para improvisar um tecto colocando-a entre o roupeiro e o frigorifico e sob o qual colocamos as duas cadeiras de verga, os meus irmãos se arrumaram dentro do roupeiro tapando-se com alguns cobertores, a mais pequenina continuou ao colo da minha mãe que, tal como eu, se sentou numa das cadeiras, com as pernas encolhidas para não ficarem molhadas pela água que entretanto começava a correr como um rio, e enroladas nos cobertores lá ficamos, na noite escura, num lugar desconhecido, em silêncio, para enganar o medo, à espera que o dia nascesse…
Não passou um único automóvel, durante a noite toda não passou ninguém. Tudo era silêncio, apenas se ouvia a chuva e de quando em quando, o cacarejar de uma galinha que conseguia escapar do seu cativeiro, o adejar das asas e, pouco depois, mais ao longe, cães a ladrar furiosamente.




Recordo que a minha mãe e eu quase não falamos e também me lembro que sentia o peito apertado pelo medo.