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sábado, março 27

O livro que estou lendo:E se Obama fosse africano, e outras interinvenções



Nestes dias em que tanto se volta falar de Obama apetece-me transcrever algumas passagens do livro que estou lendo: E se Obama fosse africano, e outras interinvenções, de Mia Couto.  Ainda não tinha lido nada deste autor, mas estou gostando, sobretudo pela vertente antropológica pois nos faz compreender melhor a forma de ser do povo africano, além de estar escrito numa linguagem acessível e bem-humorada. Trata-se de uma recolha de intervenções feitas pelo autor em diversos congressos internacionais sobre a influência da língua portuguesa em África. Espero que gostem.

E se Obama fosse africano?
Os africanos rejubilaram com a vitória de Obama. Eu fui um deles. Depois de uma noite em claro, na realidade da penumbra da madrugada, as lágrimas corriam-me quando ele pronunciou o discurso vencedor. (…)
Na noite de 5 de Novembro, o novo presidente norte-americano não era apenas um homem que falava. Era a sufocada voz da esperança que se erguia, liberta, dentro de nós (…)
E se Obama fosse africano e candidato a uma presidência africana?
1.       Se Obama fosse africano, um seu concorrente (um qualquer Geoge Bush das Áfricas) inventaria mudanças na constituição para prolongar o seu mandato para além do previsto. E o nosso Obama teria que esperar mais uns anos para voltar a candidatar-se. A espera poderia ser longa, se tomarmos em conta a permanência de um mesmo presidente no poder em África. Uns 41 anos no Gabão, 39 na Líbia, 28 no Zimbabwe, 28 na Guiné Equatorial, 28 em Angola, 27 no Egipto, 26 nos Camarões. E por aí fora, perfazendo uma quinzena de presidentes que governas há mais de 20 anos consecutivos no continente. Mugabe terá 90 anos quando terminar o mandato para o qual se impôs acima do veredicto popular.

2.      Se Obama fosse africano, o mais provável era que, sendo candidato do partido da oposição, não teria espaço para fazer campanha (…) os Bush de África não toleram opositores, não toleram a democracia.

3.      Se Obama fosse africano, não seria sequer elegível na maior parte dos países porque as elites no poder inventaram leis restritivas que fecham as portas da presidência a filhos de estrangeiros e a descendentes de imigrantes. (…)

4.      Sejamos claros: Obama é negro nos Estados Unidos. Em África ele é mulato. Se Obama fosse africano, veria a sua raça atirada contra o seu próprio rosto. Não que cor da pele fosse importante para os povos que esperam ver nos seus líderes competência e trabalho sério. Mas as elites predadoras fariam campanha contra alguém que designariam por um”não autêntico africano”.O mesmo irmão negro que hoje é saudado como novo presidente americano seria vilipendiado em casa como sendo representante dos “outros”, dos de outra raça, de outra bandeira (ou com nenhuma bandeira?).

5.      Se fosse africano, o nosso “irmão” teria de dar muita explicação aos moralistas de serviço quando pensasse em incluir no discurso de agradecimento o apoio que recebeu dos homossexuais. Pecado mortal para os advogados da chamada”pureza africana”.Para estes moralistas – tantas vezes no poder, tantas vezes com poder – a homossexualidade é um inaceitável vício mortal que é exterior a África e aos africanos.

6.      Se ganhasse as eleições, Obama teria provavelmente que sentar-se à mesa de negociações e partilhar o poder com o derrotado(….)