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domingo, janeiro 24

Voltando à minha infância…Carocinhos no peito.



 A minha mãe comparava a nossa vida à vida dos ciganos devido às constantes viagens e mudanças, mas esta constante movimentação e o mundo muito próprio que tínhamos fizeram com que fosse muito fácil não me ver crescer.
 Eu continuava lendo muito, sem discriminação, e a maior parte das vezes, sem fazer perguntas sobre o que lia. Foi o que aconteceu durante as minhas longas e solitárias leituras da Enciclopédia da Saúde, particularmente quando cheguei ao capítulo das doenças incuráveis, entre elas o cancro. Foi um a viagem difícil e assustadora onde as consequências e os tratamentos deste mal me aterrorizaram. Nessa época o cancro era ainda mais aterrador porque incurável e os tratamentos se mostravam quase tão cruéis como a própria doença.
 Foi neste momento que eu descobri que e tinha um pequeno caroço no peito e me convenci que tinha cancro de mama.
Quanto mais lia sobre o assunto, mais os sintomas se pareciam com aquilo que eu sentia, a minha certeza se acentuava cada dia mais e a minha angústia também, mas guardei tudo para mim, não queria dar esse desgosto à minha mãe. Chorei muito imaginando o meu futuro sofrimento, os tormentos que havia de passar, me imaginava dentro de uma máquina de cobalto para receber os raios de Rádio, sentia os enjoos do efeito das radiações, como me caia o cabelo… de todos os tratamentos que teria que fazer, sem resultado. Sim, porque no fim eu morria de qualquer modo. Então chorava pela falta que havia de sentir dos meus pais e meus irmãos, mas também a dor que eles sentiriam pela minha partida. Rezava, rezava muito, só Deus me podia ajudar, e em todo caso, uma vez que haveria de o encontrar depois da morte, mais valia estar nas suas boas graças.
Sentia-me muito generosa ao evitar o sofrimento dos que me rodeavam. Era uma heroína…
 Não sei se isto durou muito, mas acabou quando, na continuação das leituras, cheguei á parte onde se falava do desenvolvimento do corpo humano, principalmente o desenvolvimento físico das raparigas. Então respirei de alívio, voltei a sorrir e já não me assustou sentir o aparecimento de mais um carocinho no outro lado do peito. Agora entrava na fase de observação do seu desenvolvimento e de pedir à minha mãe que me comprasse um soutien …