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sábado, janeiro 16

O fim


Fortunata aprendeu a dominar os seus sentimentos e desejos, tudo o que sentia expressava de uma forma suave, morna. Nunca era expansiva nas alegrias, raramente dava uma gargalhada, a sua alegria era tímida, como se fosse um pecado, como se não merecesse, ou tivesse medo, de ser feliz, enquanto as suas tristezas eram doridas e silenciosas, aceites com resignação.
Enquanto a mãe foi viva ela sentia que a sua vida tinha um objectivo, sentia-se útil e satisfeita por estar cumprindo com os eu dever de filha.
Quando Francisca morreu, Fortunata já estava na casa dos cinquenta e se sentia cansada. A doença da mãe, que morreu com mais de 90 anos, tinha posto à prova a sua resistência física e psicológica. Agora se encontrava só e parecia que a vida deixava de ter sentido, mas ela nada reclamava, apenas se tornava mais pessimista, mais triste, só a fé que lhe dava conforto.
Voltou a sua atenção para os sobrinhos, os irmãos, que se tornaram a sua fonte de preocupações. Por vezes mostrou algum arrependimento por não ter casado, por não ter filhos, apesar de manter uma fé inabalável, confessava que podia ter servido a Deus igualmente se tivesse tido uma família.
Assustava-se com as mudanças na sociedade, tinha alguma dificuldade em aceitar os novos valores, principalmente o novo conceito de pecado, ou a inexistência dele, lamentava que tudo aquilo que nunca fez fosse, agora, permitido.
Morreu aos 86. Uma terrível depressão a fez por em causa toda a sua vida, considerava que tinha sido uma inútil, duvidava da sua fé, dizia que não era uma fé verdadeira, que tudo o que tinha feito era para que os outros vissem, deixou de ir à missa, nem comungar queria, deixou de bordar…
Convenceu-se que ia para o Inferno pois que nunca tinha sido nem boa nem má.
Depois de alguns meses de terrível sofrimento psicológico, de uma angústia imerecida, ela, que tinha uma saúde invejável para a sua idade,se deixou vencer pela tristeza. Dirigiu-se à casa de banho e ali deu o seu último suspiro. Ironia da vida, logo ela , que sempre deu tanta atenção à alma.
 Sou testemunha de que a sua vida não foi inútil nem falsa a sua fé. Sei do bem que ela fez a tanta gente e do carinho sincero que tinha por mim.
Fortunata foi a minha tia mais querida, minha companheira durante os quase dez anos que passei na ilha. Apesar de nem sempre ouvir os seus conselhos. Tenho saudades dela. Voltar à aldeia e não a encontrar sentada na cadeira de vimes, bordando, me faz sentir um enorme vazio…