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domingo, janeiro 3

O fim dos perus...



Estávamos, agora, numa grande cidade mas bastante afastados do centro, tanto que não me lembro da cidade nessa época, apenas lembro do calor, que era uma constante por onde passávamos.
Tão pouco tenho grandes lembranças da casa e do lugar, apenas que era bastante escura e estava rodeada de um terreno pouco cuidado coberto de matagal alto, e tinha uma espécie de armazém, mesmo junto  da habitação, que seria o lugar onde se faria a criação dos ditos perus.
Em poucos dias aquele espaço ficou a abarrotar de perus bebés, todos pretos e desengraçados, que comiam dia e noite no meio de um ensurdecedor gorgolejo que, ao fim de uns dias, se tornou num barulho insuportável.
Confesso que nunca gostei dos perus, eles me causavam um certo arrepio, por isso me mantinha à distância. Contudo, senti pena quando, ao fim de algumas semanas, uma praga qualquer dizimou, um a um, todos os perus ainda bebés… E à medida que desapareciam os perus, desaparecia também o dinheiro do meu pai. Finalmente o silêncio tomou conta daquela casa, um silêncio pesado, incómodo, até eu fiquei calada observando a tristeza dos meus pais.
Pouco depois decidiram começar a fabricação de chouriços, o que se revelou num fracasso novamente. Eles trabalhavam com afinco mas algo deu errado durante a cura porque, passados alguns dias, os enchidos de carne começaram a dar sinais de putrefacção. Foi uma perca total.
O meu pai voltou a procurar trabalho na construção e fomos informados de que uma nova mudança seria necessária, o que me alegrou muito já que não gostava daquele lugar. Pouco a pouco nos aproximávamos do ponto de partida.