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terça-feira, janeiro 12

Fortunata


A minha mãe escrevia pouco à família, em parte por não ter notícias agradáveis para dar, mas sobretudo por não ter um endereço fixo devido as constantes mudanças, no entanto para atenuar a distância que os separava falava muito na mãe e nos irmãos. Foi deste modo que nós conhecemos a família que apesar de ausente, vivia connosco, e sabíamos quase tudo da vida deles.
 A minha mãe era a mais nova dos filhos de Francisco e Francisca, os meus avós ,José Maria, o único filho homem, emigrara para África do Sul onde já se encontrava Maria José a filha mais velha que, depois de um casamento por procuração, algo muito comum naqueles tempos, ao que se julgava então, com um bom partido, um bom rapaz também da aldeia, viajara para aquele país para encontrar um marido que não conhecia. Mas desta tia falarei um pouco mais detalhadamente noutra altura, depois de confirmar a sua história.
Hoje quero falar de Fortunata, a outra irmã da minha mãe.
Fortunata era solteira, solteira por opção, e ficou sempre em casa da mãe até à morte desta. Segundo dizia a minha mãe, naquele tempo, - falo das décadas de 30-40 do século passado – era usual que numa casa onde houvessem várias raparigas, uma delas ficar solteira para cuidar dos pais. Mas Fortunata preferiu ficar solteira também por outras razões.

 Era uma mulher de elevada estatura, delgada e muito bem torneada, de uma beleza serena e usava óculos. Refiro-me aos óculos porque quando eu era bem pequena gostava tanto dela que dizia que queria usar óculos e não perdia a oportunidade e me apoderar deles e andar aos tombos pela casa!
Fez-se Filha de Maria (falei das Filhas de Maria aqui:) Virgem de signo e de corpo, nunca teve namorado, embora não lhe tivessem faltado pretendentes, porque lhe parecia que não valia a pena, não estava interessada em mostrar as cartas de namoro ao padre e sujeitar-se à sua aprovação ou não. Também porque tinha visto os tormentos que a minha mãe tinha passado para casar com meu pai, e os desgostos de Maria José, que antes de casar com o “cabeiro” (era assim que chamavam àqueles que emigravam para a África do Sul) tinha namorado um rapaz que depois a abandonou.
Para Fortunata, que nunca provou o sabor da paixão ou do amor, foi fácil se deixar ficar, cuidando apenas da sua alma e da sua mãe.