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quarta-feira, janeiro 13

Fortunata, a sempre virgem…


Tinha o seu tempo muito preenchido, além de trabalhar na terra cultivando as terras da família, tocava os sinos das ave-marias e dirigia o coro da igreja, era ela que dava início aos cânticos nas celebrações religiosas e ainda se ocupava da limpeza e decoração da mesma. Fazia questão de procurar sempre flores muito frescas para embelezar os altares e que estivesse tudo sempre muito bem arranjado. Durante quase toda a vida foi catequista.
 Era muito exigente consigo, quase perfeccionista, e embora exigisse das pessoas as mesmas qualidades, o seu temperamento era suave e raramente se zangava, contudo nunca se inibiu de dar um conselho ou de fazer uma chamada de atenção quando considerava que alguém estava pondo em risco a sua alma, ou mesmo o seu corpo, uma vez que é o corpo que condena a alma.
Fora por algum tempo ajudante de um alfaiate onde prendeu todos os segredos dos fatos de homem, e por algumas décadas costurou as calças dos homens da aldeia e as saias e blusas das senhoras, ainda que nunca fizesse fortuna com isso, pois era muito ponderada e tinha medo de ser injusta nos preços. Ela foi a pessoa com o maior sentido de justiça que conheci, para ela o mais importante era ficar com a consciência tranquila, mesmo que ficasse a perder com isso.
Mas o que ela gostava mesmo era de bordar. Depois de terminar o seu trabalho no campo, pouco antes da hora do almoço, lavava-se cuidadosamente, “areava” (como ela dizia) muito bem as mãos e depois de uma ligeira sesta, se sentava numa cadeira de vimes, no corredor de pedrinhas debaixo da de uma velha parreira junto à porta da cozinha, onde batia sempre o sol, mas de costas para ele de modo que a luz incidisse sobre o linho estava a bordar. Isto no Verão ou nos dias amenos de Outono, nos dias frios ficava junto à janela do quarto, então fazia aquilo de que mais gostava, bordar, num silêncio que só era interrompido pelo chilrear dos passarinhos que pousavam num antigo araçaleiro junto à casa, ou o cumprimento de algum vizinho que passava.
 Tinha umas mãos extremamente habilidosas, bordava com uma perfeição inigualável o ponto Madeira ou qualquer outro ponto. Trabalhava quase sempre de graça, para agradecer alguma prenda, umas meias, um casaquinho, um perfume ou qualquer outra lembrança que lhe traziam as suas amigas do Cabo ou da Venezuela. Bordava verdadeiras obras arte, o que fazia com que fosse uma das pessoas mais lembradas pelas senhoras que vinham de fora, e como não podia deixar de ser, bordou lindas toalhas para o altar da igreja e os paramentos que o padre usava durante a missa. Ficava muito orgulhosa quando lhe elogiavam o trabalho, no entanto ela encontrava sempre defeitos naquilo que fazia.
Apesar de ser dedicada à igreja, não era dedicada aos padres, desde muito cedo se apercebeu da humanidade e dos erros deles, tinha respeito pelo representante de Deus na terra, não pelo homem mortal. Também sabia como era fácil ser mal interpretada e cair nas bocas do mundo, desse modo, sempre se manteve a uma distância prudente dos padres, que lhe tinham grande consideração e respeito.
Ainda continua…