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terça-feira, dezembro 1

Recomeço da minha história.

Depois de um breve intervalo para falar das histórias dos outros recomeço , de novo, a minha história.

Entretanto, os dias passavam  numa calma aparente, vivíamos ao sabor dos acontecimentos diários, onde as coisas mais simples adquiriam uma grande importância.
Era assim quando apareciam as grandes chuvas, aquelas que nos inspiravam temor. Sobressaltávamo -nos com a claridade dos raios que rasgavam o céu e com o ribombar violento dos trovões, enquanto víamos a água correr como um rio e se aproximar perigosamente da soleira da porta., e então, como se fosse uma aventura, corríamos a tapar todas as frinchas, todos os espaços por onde ela a pudesse entrar. Porque naquela planície húmida, onde abundavam os grandes rios, as inundações eram frequentes
À medida que a chuva amainava o coração também se acalmava e tudo renascia ao surgir o primeiro arco-íris rasgando o céu, então era de novo o sol e o céu azul ,lavado, transparente, enquanto ainda ouvíamos ao longe, o eco de um trovão.
Depois saltávamos para a rua e esfregávamos os pés na terra molhada e escorregadia. Ainda me lembro do gostoso que era enterrar as mãos na lama e de ficar encharcada pelas gotas grossas que ainda caíam das árvores e do calor sufocante que chegava depois. Recordo que nesses momentos nos deitávamos no chão para sentir a frescura do cimento, e de como rebolávamos logo que ele aquecia com o calor do corpo procurando outro canto ainda fresco.
Lembro-me do que eu sentia, mas não posso saber o que ia no pensamento e no coração da minha mãe, mas tenho a certeza de que ela a não desfrutava destes prazeres como nós, o seu coração tinha, certamente, outras inquietações…

O jovem Fernando, o português que trabalhava na oficina de recauchutagem, juntamente com o irmão e o pai, morreu num terrível acidente automóvel. Foi a primeira vez que me confrontei com a morte de alguém que conhecia. Custou-me a compreender, não conseguia assimilar a ideia de nunca mais o voltar a ver, e presenciar o sofrimento dos pais e irmão, me tocou profundamente, numa idade em que, ao pensar na morte, o que mais assustava era imaginar com como é que podia respirar dentro de um caixão coberto  de terra…Era o meu maior pesadelo.