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sexta-feira, dezembro 4

A minha história de Natal



 Deveria publicar esse relato mais perto do Natal, mas…

Na ânsia de encontrar o caminho para o seu El Dorado, o meu pai se deixou aliciar por um amigo e com a ideia de fazer um negócio próprio, mas para isso devíamos deixar aquela casa e aquela cidade, logo a seguir ao Natal.
Desse Natal tenho uma lembrança desagradável. Como já referi antes, acreditei no Menino Jesus até bastante tarde, por isso, o Natal era o tempo em que me deixava levar pela fantasia e me enchia de esperança e expectativas, era o tempo em que acreditava poder obter algo que desejava e que sabia,que os meus pais não me podiam dar, porque embora  a maioria das vezes não me deixasse exactamente o que eu tinha pedido,nunca se tinha esquecido de mim.
Nesse Natal fui mais exigente do que era habitual e decidi pedir um jogo de loto, daqueles que tem uma esfera que se faz girar e deixa cair uma bola numerada. Isto ocorreu-me desde o dia em que, na casa da família Paabola, tínhamos jogado todos juntos e passado o que foi, para mim, uma tarde memorável! Escrevi uma grande carta ao Menino explicando exactamente o que desejava fazendo ênfase na esfera distribuidora de bolas. Nessa carta, também pedia o que meus irmãos queriam, pois eles eram muito pequenos e não sabiam escrever, finalmente, meti a carta num envelope com a minha morada, escondi-a muito bem, e fiquei à espera que os dias voassem!
 Esse ano, ao contrário do que era costume, abrimos os pacotes com os brinquedos antes  da missa do galo, à qual assistíamos sempre. Os pacotes estavam distribuídos por toda a casa, o que nos proporcionava um excitante jogo e provocava gritos de alegria cada vez que uma das caixas era encontrada. Quando descobri a caixa que tinha o meu nome, o meu coração ficou pequenino. Pelo volume dela pude ver imediatamente que a esfera dos meus sonhos não estava lá, ainda assim, procurei por todos os recantos, talvez ela estivesse noutra caixa…Mas não, a esfera não existia… Mas, Porque?! Se eu me tinha portado bem! Sim, porque quando o Natal se aproximava, eu era a menina mais obediente e bem comportada do mundo! Não queria que me acontecesse como a minha amiga Natércia, a filha do feitor da aldeia, que, por ser desobediente e pouco amiga da irmã mais nova, encontrou na chaminé, junto do sapatinho, em lugar das prendas que queria, pedaços de carvão e um cinto igual ao que o pai usava para lhe dar uns açoites de vez em quando, enquanto a irmã, pequena e boazinha, recebia lindas prendas…
O meu desespero aumentava à medida que ia abrindo os pacotes! Sentia crescer dentro de mim uma grande decepção misturada com raiva e tristeza, era como uma bomba a explodir dentro do meu peito, e então me zanguei com Ele. Gritei olhando para o céu, procurando apoio nos meus pais…Mas ficaram em silêncio, olhando-se e olhando-me, entristecidos, e eu acreditei que sentiam a minha tristeza e partilhavam o meu desapontamento.
Essa noite, pela primeira vez, não me apeteceu ir à missa do galo, fi-lo contrariada, e foi uma noite cheia de recriminações ao Menino. Mais tarde minha mãe me fez ver que haviam muitas crianças que não recebia nenhuma prenda, que eu era muito afortunada, o que me custo muito a acreditar, mas depois, já mais serena, pedi desculpas ao Menino e prometi nunca mais fazer exigências, só então me senti em paz, e muito… boazinha. (tenho tantas saudades de sentir essa paz!) E como o tempo tudo cura, nos dias seguintes o jogo de loto, tão simples, proporcionou muita animação, mesmo tirando as bolinhas numeradas de um saquinho, e ninguém se lembrou mais da desejada esfera!