Google+ Followers

sexta-feira, novembro 20

A mulher que era carteiro


Existia na aldeia uma mulher que era uma personagem muito interessante; Maria Dora, a mulher carteiro. Abandonada pelo marido, que foi para o Brasil e nunca mais se soube nada dele, ficou com três filhos para criar ainda muito jovem. Não sendo de família endinheirada, trabalhava na agricultura, mas era também o carteiro da aldeia. Ceio que foi a única mulher a exercer essa profissão, não só na sua freguesia mas em toda a ilha.
Durante anos esta mulher calcorreou, descalça quase sempre, as íngremes e perigosas veredas, saltitou como uma cabra montanhesa as escarpadas rochas e deslizou à beira de precipícios todos os dias, fosse Inverno ou fosse Verão, fizesse chuva ou fizesse sol. Era ela que levava as saudades dos que ficaram na aldeia dos filhos e maridos que tinham embarcado, como se dizia então, e era ela que trazia de volta as notícias que os acalmavam. Toda aldeia ficava à espera pois ela chegava pontualmente,um pouco antes da hora do antes do almoço.
Nos dias de vendaval e chuva, quando as pedras escorregavam das escarpas e vinham cair nos caminhos, a freguesia agitava-se e muita gente se concentrava no largo, ansiosa, só respirando de alívio ao avistar na última curva da estrada, a Maria Dora, não sei bem se preocupados com ela ou com a possibilidade de não receber as cartas e notícias habituais…
Ela não trazia apenas o correio, trazia também o jornal diário, encomenda do padre e do regedor, o pano e as linhas de bordar ou de croché e os produtos de farmácia, entre muitas outras coisas, que as pessoas da aldeia lhe pediam. Não sabia ler nem escrever mas realizava com eficácia todos os encargos, tinha esperteza e boa memória, e experiência da vida.
Creio que nunca se negou a fazer qualquer favor, sempre de graça, embora aceitasse de bom grado uma gratificação, aliás, toda a gente sabia que era melhor agradecer… É que ela tinha uma língua viperina, que todos temiam. Ela jurava que nunca inventava nada, mas o que sabia tinha que dizer conforme ouvia, dizia, sem verificar se era verdade ou era mentira. Por vezes se queixava porque sempre que havia alguma bilhardisse nova diziam que tinha sido ela a espalhá-la e, tal como os terroristas dos dias de hoje, não gostava de ser acusada pelo que não tinha feito. Tinha uma certa “ética” quando espalhava uma novidade fazia questão de informar a fonte!
Abusava da ironia e dos comentários ácidos.
Costumava dizer: _Eu é que sou a bilhardeira, mas há muitas sonsas por aí que são muito piores do que eu! Vão para a igreja bater no peito mas tem pecados de rabo!
Era a mulher mais bem informada daquelas bandas e ao entregar o correio, publicava também as notícias que trazia de fora, os diz-que-diz-, as intrigas e maroscas, e até os falecimentos e casamentos daquele lado da ilha.
Continua…..