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domingo, novembro 8

A minha avó paterna

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 Em casa raramente se falava na minha avó paterna, nem mesmo meu pai falava muito dela. As relações da minha mãe com a sogra nunca foram muito próximas e o afastamento cresceu depois que saíram da aldeia. Só muitos anos depois, quando voltei à aldeia, tive oportunidade de conhecer esta mulher.
Era de estatura média, na verdade, era exactamente da minha altura. Parecia muito desembaraçada, com bonitos olhos azuis, muito vivos, mas às vezes podia descobrir-se uma certa tristeza no fundo do olhar, as feições parecidas com o meu pai, ou antes o contrário...( meu pai era parecido com ela, à excepção dos olhos, que nele eram castanhos e escuros) a expressão do rosto era firme, e por vezes, algo irónica. Creio que escondia os sentimentos ou as mágoas por pudor, preferindo que a vissem como uma pessoa fria ou desligada. Não tinha paciência para mexericos e se afastava daquelas que o faziam. Ia à igreja durante tarde para rezar o rosário, ou assistir às novenas, mas não era dada beatices.
Ao aproximar-me dela descobri que era uma mulher respeitadora do espaço dos outros, aberta a novas ideias e sem grandes complexos, nada parecia surpreendê-la. Tinha quase 80 anos quando a conheci, era analfabeta, porém com a sabedoria da simplicidade e a experiência da vida.
Ela ia visitar-me na casa da minha avó materna, falecida anos atrás, inicialmente falava  timidamente, como se tivesse receio de que eu não a quisesse ouvir, mas eu abri o meu coração e coloquei de lado os preconceitos que me tinham sido inculcados.   
Chegava de mansinho...