Google+ Followers

segunda-feira, novembro 9

Chegava de mansinho... a minha avó

-->
--> -->

Chegava de mansinho, batia à porta levemente e atravessava o terreiro de calçada até a entrada do meu quarto,se me encontrasse a trabalhar ou a ler, e antes de que eu pudesse dizer alguma coisa, colocava os dedos nos lábios em sinal de silêncio e se sentava na soleira da porta, observando-me, acompanhando-me apenas, até que uma de nós, geralmente eu, rompia o silêncio. Mas, na verdade, as palavras nem eram precisas.          
Falava pouco si própria e era com muito rodeio que tentava saber do seu filho, o meu pai, a quem já não via há quase trinta anos. Ficava muito feliz quando eu lhe mostrava fotografias dos meus irmãos e do meu pai, mas não se manifestava demasiado.Depois de algum tempo, erguia-se num gesto vivo, dizia adeus com a mão e saía rapidamente.
Mais tarde eu descobria, num cantinho junto á porta, envolta numa folha de vinha, uma pequena quantidade de dinheiro, uma parte da sua magra pensão de reforma. Durante alguns dias não me ia visitar, de modo a que eu  esquecesse esse seu gesto, mas eu lembrava sempre, pedia-lhe para não o fazer aquilo, então ela agitava as mãos num gesto de impaciência e me obrigava a calar. Entendi que essa era a sua forma de me dizer quanto gostava de mim e que isso a fazia feliz.
Eu sentia uma grande ternura por ela e seu feitio desajeitado de manifestar afecto me divertia. Durante o tempo em que convivemos, chegamos a ser boas amigas e eu me sentia à vontade para lhe contar as minhas angústias e alegrias.
Depois de ter criado sete filhos e enterrado o marido estava agora sozinha. Os filhos, espalhados por três continentes, pareciam esquecê-la.
Alguns anos depois morreu só, no casarão quase em ruínas que o marido tinha construído. Eu também já não estava lá.