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quinta-feira, novembro 26

Assim foi Luzia






 O que nela sobretudo avultava eram os olhos – pequenos, mas de um estranho, cavado e vivo fulgor, num rosto emaciado e triste. E toda ávida dessa mulher estava no fulgor daquele olhar, em que floria sempre uma febril claridade. Foi pelos olhos que ela, primeiro, morreu.
            A última imagem que tenho dessa encantadora Luzia, de quem a Madeira celebra agora, a pálida memória, é a cegueira, desse crepúsculo terrível da vista, n uma tarde de fim de Verão em que a visitei na sua linda casa do Funchal. Cá fora no jardim, caia sobre as folhagens, os canteiros de rosas e as trepadeiras o esplendor do dia. (…) E da porta da entrada, a figura de Luísa Grande, escondidos os olhos que eram toda a sua vida, estendia ao amigo recém chegado os braços magros e tristes - e tudo o que nela antes fora cintilação e graça se concentrara, como sob um grande guarda-sol de madressilvas, um sorriso que vinha ao nosso encontro, feliz, um sorriso que via, de onde ela toda se debruçava, como de uma janela aberta. (…)
A minha visita foi curta. Luzia convalescia ainda de uma doença que a tivera moribunda.
Pouco tempo depois, a escritora de “Rindo E Chorando” morria nesse Funchal, onde a eterna vagabunda que tanto amara a luz, até no nome, fora abrigar-se para, em silêncio para, em silêncio e entre flores, acabar.
(…) essa a quem um dia, chamei o”Eça Queiroz de saias”e que foi uma das mais dispersivas, gentis sensibilidades que tenho conhecido – essa mulher, deliciosamente feia, que teve e dissipou em bagatelas um lindíssimo talento. O talento tem uma escala infinita de comunicabilidade e de atracção. Há inteligências agrestes, agressivas, com maus dente; há inteligências amáveis que sorriem; grandes espíritos que nos dão com a porta na cara; sensibilidades com mau hálito e encantadoras sensibilidades feitas de simpatia e que convivem.
Luzia tinha no talento todas as gamas da sedução, todas as doçuras da epiderme, e nela habitavam, paredes meias, as duas irmãs gémeas que se chamam Ironia e Ternura.


Excertos de um artigo escrito por Augusto de Castro no Diário de Notícias, em 13-12 de 1956, sobre Luísa Grande, escritora, de quem falei aqui, do qual publicareí ainda ,outra parte, e que pode ser lido na íntegra nesta ligação:
http://bmfunchal.blogs.sapo.pt/2788.html