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domingo, novembro 29

Assim foi Luzia II

Os seus livros, mais do que escritos, foram conversados. Quando se lê a “Última Rosa” ou as “Cartas de Uma Vagabubnda”tem-se a impressão de uma deliciosa palestra com a autora, à tarde, entre duas xícaras de chá e duas jarras de flores (…) Porque Luzia tinha o dom maravilhoso de conversar com as coisas, com as paisagens, com os amigos, com os heróis e as heroínas dos seus livros. Ficou, por isso, é certo, um bocadinho cosmopolita e errante. Mas essa alentejana, nascida em Portalegre, sempre soube ser madeirense. A aliança do Funchal a a de Paris foi uma das expressões do seu temperamento e a sua literatura. Quando nos víamos em Paris, naquele hotel da Rua Balzac onde ela tinha os eu salão, era para falarmos do Funchal – e quando nos encontrámos, pela última vez, no Funchal, quase não falamos senão do Funchal.

Confesso que receio que as novas gerações não compreendam esse lento e subtil jeito de vaguear sobre as ideias e as pessoas, os sentimentos, a arte e a vida que era a grande vocação dessa viajante literária que foi Luzia. Assim como nunca se fixou na vida – senão no fim, na sua verde ilha natal, para morrer – assim também nunca na literatura teve uma casa ou um género. Há crónicas dela sobre Lisboa em que se adivinha o monóculo de Eça a descer o Chiado.
E essa permanente doente, que passou uma parte da vida num fateuil e que percorria o continente, de médico em médico, abafada e calafetada por fora, inundada  de claridade por dentro, conservou até aos seus últimos e dolorosos momentos o privilégio subtil de sorrir. As suas novelas, as páginas que conversou e as conversas que escreveu estão todas impregnadas dessa malícia risonha e indulgente. Risonha, indulgente e tão feminina!
Lembrava-me, por vezes, Maria Amália Vaz de Carvalho na sua forma literária de ser mulher. E digam o que disserem, ser mulher, em literatura, ainda tem que se lhe diga…

Augusto de Castro, Diário de Notícias, 13 – 12 – 956

"(…) A ausência de calor materno, a doença e vida breve do pai, a queda violenta de um lar, que devia ser de amor e não o fora - são os marcos da Via Sacra que assinalam a vida da escritora, eterna vagabunda em busca da felicidade fugidia.
Essa ferida e ausência de ternura na sua vida, reflecte-se nitidamente nas melhores páginas de Luzia, até quando nos fala, por exemplo, do mar da ilha.
“Passeie viver com o mar, escreve, e para o mar, ouvindo só a sua voz, suave canção das ondas mansas ou fúria de doidos vagalhões…”
É o desabafar de uma grande desiludida: porque a alma só se volta para a contemplação da Natureza, como remédio, quando os grandes amores da vida, derruíram pela raiz (…) Estes factos ficam marcados na sua existência como chagas profundas."