Google+ Followers

sábado, novembro 21

Ainda sobre a mulher carteiro


Dizia que em jovem tinha sido atacada pela febre tifóide e que essa doença a tinha deixado sem cabelo e lhe fez cair, um a um, todos os dentes, mas o povo comentava que tinha sido devido ao desgosto pelo abandono do marido. Ela nunca se vestiu de viúva mas nunca arranjou outro homem e continuou vivendo na casa da mãe até à morte desta.
Apesar de ser uma mulher com muito mais liberdade do que as outras, e de ser muito alegre e comunicativa que falava e brincava da mesma forma com todos, fosse homem ou mulher, fosse um doutor ou um mendigo, tudo isto num tempo em que as pessoas estavam cheias de preconceitos e desconfianças, nunca ninguém pôs em causa a honestidade e seriedade desta mulher.
Quando a conheci ela ainda distribuía o correio, mas agora estava calçada e a aldeia já tinha uma estrada e um furado, como se diz por lá ao falar dum túnel, aproveitava a boleia do padeiro para ir ao Estreito e quase sempre encontrava alguém que a levasse de volta, mas não lhe custava nada percorrer a via, ainda em terra batida, que a levava à aldeia, apesar da idade já avançada.
Continuava sem dentes, embora tivesse tentado várias vezes utilizar uma prótese, nunca conseguiu adaptar-se a esse artefacto, mas o cabelo era forte e brilhante, muito preto, quase sem brancas, com o qual tecia uma trança que enrolava no alto da cabeça. Ela dizia que o segredo da sua forte cabeleira era uma loção que ela mesma fazia, a base de azeite, álcool e cânfora ao qual juntava algumas ervas, que ela aplicava no cabelo.
Mas A Maria Dora não era apenas a mulher do correio, ela era uma excelente massagista que durante gerações endireitou pernas e braços e mesmo a coluna, e curou o “buxo virado” das crianças, posso assegurar que quase toda a aldeia passou pelas suas mãos. Conhecia bem o poder das ervas, conhecimento que partilhava com todos aqueles que pedissem a sua ajuda, e orgulhava-se de ter curado muitos problemas de asma com as suas mezinhas. Reformou-se com uma pequena pensão depois de mais de quarenta anos de duro trabalho, os filhos emigraram muito novos, como era usual na época, por lá se mantinham, mas ela continuou endireitando ossos e curando o buxo das crianças até já não poder, quando os dedos das mãos ficaram deformados pela artrite.
Morreu só, na casa onde sempre viveu. Só deram pela sua falta muitas horas depois…
Deixo aqui a minha pequena homenagem a uma mulher que,não sendo mais do que as outras ,era, pelo menos, singular.