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terça-feira, outubro 27

A testemunha.

A extrema religiosidade da minha mãe tornava-a, por vezes, uma pessoa intolerante. Recordo que numa tarde muito quente em que a minha mãe passava a ferro no alpendre, uma Testemunha de Jeová bateu à porta, depois de alguma conversa a minha mãe lhe perguntou se ela já tinha nascido testemunha de Jeová, ao que a mulher respondeu que não, que já tinha sido católica, mas que se sentia muito mais feliz nesta religião, então a minha mãe perguntou:

- Trocou a sua mãe verdadeira por uma madrasta?!
A mulher ficou algo desconcertada e procurou explicar as razões pelas quais tinha abandonado o catolicismo, isto fez com iniciassem um feroz debate sobre a Bíblia, cada uma puxando a brasa para a sua sardinha, mas quando a testemunha disse que não acreditava na Virgem Maria, ou seja, na sua virgindade, que Jesus tinha irmãos que também eram filhos de Maria e de José, e ainda, que os católicos adoravam imagens, coisa que ia contra os mandatos de Deus, a minha mãe perdeu a calma, de um momento para outro se tornou uma fera! Levantou o ferro quente, arrancou-o da tomada e correu atrás da mulher que fugiu a sete pés pela rua fora enquanto gritava que a minha mãe era maluca!
Ela nunca mais se calava, durante alguns dias só falava do assunto, não conseguia aceitar que alguém tivesse dito tal blasfémia na sua própria casa!
 Estas controvérsias me causavam uma certa inquietação e colocavam no meu espírito um grande ponto de interrogação.Mas, entendo hoje, que a religião lhe servia de apoio enquanto criava os filhos sozinha e que estas regras apertadas lhe permitiam manter o controlo e lhe davam uma certa segurança quanto aos valores a transmitir.