Google+ Followers

segunda-feira, outubro 5

Tempos deliciosos

Os tempos que se seguiram foram estranhos mas deliciosos. O meu pai continuava longe, às vezes só vinha ao fim de um mês, e a minha mãe passou a ser o centro da nossa vida.

Não estávamos apenas num lugar remoto e recôndito daquele continente, como fizemos daquela casa o nosso lugar especial, nada do que acontecia à volta nos atingia.
Começamos por limpar o jardim de todas as ervas, libertamos os troncos das laranjeiras das garras de fortes trepadeiras que as asfixiavam e arranjamos as sebes que cobriam a vedação. Deixamos apenas as flores e as plantas mas não tocamos nas orquídeas selvagens que se penduravam nos ramos das árvores mais altas. Conseguimos então ter um lindo jardim e muito mais espaço para brincar.
Devo dizer que o nosso cão aventureiro, depois de vencidas as desconfianças iniciais, criou uma grande amizade com a cadela Mónega, e como consequência, algum tempo depois, a família canina tinha aumentado. Foi uma alegria quando soubemos que ela estava prenhe, não parávamos de a vigiar, decididos como estávamos a testemunhar o momento do nascimento.
Contudo eles nasceram num domingo, quando estávamos assistindo à missa, (o único momento em que saíamos de casa). Nasceram oito lindos cachorrinhos, verdade seja dita, nem todos parecidos ao nosso cão! Ela nem aceitou o ninho que lhe havíamos preparado para a ocasião, preferiu esconder-se por entre uns arbustos junto ao muro do jardim. Não foi fácil encontrá-la, não fossem latidos dos pequenos filhotes.
Creio que poucos  cachorros foram tão acarinhados e protegidos como aqueles, o que às vezes irritava a cadela que queria apenas, um pouco de sossego…
È curioso… lembro-me pouco dos meus irmãos nesse tempo, a sensação que tenho é que eles me seguiam continuamente, me acompanhavam nas brincadeiras e me obedeciam cegamente, afinal, eu tinha oito anos de diferença do mais velho dos rapazes…
Também me lembro bem de ver a minha mãe sentada no chão debaixo do alpendre, nas horas de mais calor, com a pequenina ao colo, os meus irmãos espalhados pelo chão, ouvindo as histórias que ela contava.