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sexta-feira, outubro 2

O regesso do homem das camisas brancas

Rapidamente aprendíamos a adaptar-nos às circunstâncias. Descobrimos que alguns dos nossos vizinhos eram portugueses,  os da padaria e a mercearia da esquina, e ainda, os donos da oficina de reparação de automóveis, e fizemos amizade com os italianos da oficina de recauchutagem, um casal jovem cuja mulher tinha vindo à pouco tempo da Itália e estava esperando bebé.
Já não víamos o meu pai há cerca de dois meses, por isso os meus irmãos mais novos não o reconheceram quando ele chegou ao portão da casa. Assustados, correram para junto da minha mãe dizendo que um homem estava tentando abrir a porta. Mas não era apenas o tempo que tinha passado que fez com que eles não o reconhecessem. Ele estava muito magro, com a pele calejada pelo sol, acentuados os sulcos no rosto e uma expressão triste e cansada. Vestia roupa de caqui e trazia um chapéu na cabeça.
Onde estava o homem que pouco tempo antes se tinha separado de nós? Aquele homem robusto, de pele cuidada, que vestia camisas brancas e sempre sorridente?
Ao reconhecê-lo os meus irmãos correram até ele, também a minha mãe. Eu fiquei colada junto à coluna do alpendre, em silêncio, sentindo uma grande tristeza, mas o nó que me apertava a garganta não me deixava chorar. Mas eu sentia também uma grande revolta, uma raiva que não sabia explicar…
Vejo a minha mãe feliz com lágrimas nos olhos, e meus irmãos perguntam se ele lhes trazia alguma prenda…



Continua…