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domingo, outubro 11

O meu avó

A minha mãe falava muitas vezes do pai do pai, falecido ainda durante a sua adolescência, falava do homem que tinha ido para ao Brasil arrastado na vaga de emigração ocorrida depois da 1º Guerra Mundial, e que dois anos depois regressou com o desejo de levar a mulher e os filhos para aquela terra em que tão bem se tinha sentido. Mas ela, a minha avó, disse não, foi incapaz de deixar o seu ninho. Então ele voltou novamente para o Brasil e desta vez demorou quatro anos, a vontade de voltar para a sua casa já não era tão forte, o calor da terra e suas gentes o seduzia, contudo regressou quando percebeu que com o passar do tempo olvidaria o rosto da mulher.
Ficou alguns anos na aldeia, comprou mais terras e aumentou a família.
Mais tarde rumou à Califórnia, deixando a mulher e mais um filho que estava por nascer. Ele contava que tinha trabalhado na construção do metro de São Francisco. Da Califórnia levou uma pequena fortuna, conseguida com muito trabalho e sacrifício. Mais uma vez desejou levar a mulher e os filhos para viver o sonho americano, mas ela disse não, outra vez, e mais uma vez ele voltou.
Voltaria ainda para os Estados Unidos, desta feita para Chicago, onde trabalhou na construção e foi apanhado pela Grande Depressão. Passou por momentos difíceis, falava nos gangsters e na violência que tinha presenciado, então voltou à aldeia e nunca mais emigrou.
Morreu pouco tempo depois, aos 55 anos, a minha mãe dizia que de um “nó no intestino”- suponho que seria uma apendicite aguda – porque não tinha ido ao médico a tempo.
A minha mãe tinha uma grande admiração pelo pai, apesar de não ter convivido com ele muito tempo devido às suas viagens, e tinha pena que nenhum dos seus filhos tivesse herdado a cor dos olhos dele.