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quinta-feira, outubro 29

As leituras possíveis



Apesar de estarmos confinados ao espaço daquela casa não estávamos ignorantes do que se passava no mundo. Quando não estava subindo às árvores, observando passarinhos ou ouvindo as histórias da minha mãe, eu lia.
 Gostava muito de ler os jornais e revistas, particularmente as Selecções do Ryder Digest que o meu pai comprava todos os meses. Fiquei por dentro do que era o movimento hippie, o aparecimento dos Beatles e li nos livros condensados romances de autores importantes. Foi neste formato reduzido que li O Retrato de Dorian Grey, de Óscar Wilde, e Por Quem Dobram os Sinos, de Hemingway, pela primeira vez.
Todos os anos o meu pai comprava o Almanaque Mundial, uma interessante enciclopédia que relatava todos os acontecimentos do ano e tinha muita informação sobre os países que existiam na altura, desde as bandeiras, população, localização, mapas e muito mais, e tínhamos uma enciclopédia de saúde, onde estavam presentes a maior parte das doenças conhecidas, os sintomas e as curas das mesmas e onde abundavam as fotografias.
Nesta enciclopédia aprendi a palavra: ácido desoxirribonucleico e o seu significado, o ADN tão falado na actualidade, ou o que era o ácido acetilsalicílico, a base da tão conhecida aspirina.
Percorria os jornais de uma ponta à outra, passando pela necrologia e os anúncios classificados. Mas o que mais gostava era dos jornais de Sábado e Domingo porque traziam um suplemento de banda desenhada, e muitos jogos. Nesses dias me sentava no chão com o jornal e esquecia tudo ao me redor!
Me fascinavam as aventuras do Pimentinha, divertia-me com a Mafalda e delirava com o humor negro de El Outro yo del dr Merengue, e claro! O clássico Lone Ranger, por dizer alguns.
Mas, toda a informação que vinha do exterior não mudava em nada a nossa existência, essa era a vida dos outros, nós continuávamos vivendo segundo os nossos padrões, como se fôssemos seres eleitos para um destino superior…