Google+ Followers

quinta-feira, outubro 22

Aprendizagem

Apesar do meu pai estar trabalhando a situação económica continuava bastante difícil. Se é certo que ainda não faltava o necessário para comer, era muito difícil manter as outras necessidades básicas, como  o vestuário. A minha mãe,que tinha algumas noções de costura que aprendera  com a irmã mais velha, Fortunata,  uma excelente costureira de roupa de homem, começou a fazer a as nossas vestimentas.

Foi por esta altura que começou a comprar a revista Burda que trazia moldes , o que a ajudava bastante, e a mantinha  a par do que estava na  moda na Europa. - Esta revista me acompanhou ao longo de décadas e a minha mãe ainda hoje, quase cinquenta anos passados, faz questão de comprar alguns exemplares.-  Esmerava-se nas roupas dos meus irmãos, fazia conjuntos de calções e camisas para eles, vestidos para mim e para a mais pequenina,  para ela confeccionava muito pouco, mas tudo era feito  com muito bom gosto e carinho.
Ela era muito habilidosa e  me ensinava a fazer crochet, tricot, ponto de cruz e a trabalhar com a máquina de costura, dizia que toda rapariga devia aprender a  fazer uma bainha ou colocar um fecho. Eu tudo aprendia  e me aplicava com  interesse, mas era muito inconstante, rapidamente me  aborrecia  do trabalho e  começava outro,quando me apecebia  tinha entre mãos vários trabalhos inacabados. No fundo o que ela fazia era preparar-me para ser uma futura boa dona de casa porque  o meu destino seria casar  e ser uma boa esposa!
Confesso que  a ideia de casar não me convencia muito, eu não conseguia entender porque razão eu havia de cozinhar, cuidar das roupas e da casa de um estranho qualquer,de  alguem que nem sequer era da minha família. Quando eu dizia isto a minha mãe sorria de uma maneira que me deixava confusa... Sim, dizia ela, visto dessa forma , até tens razão!
Então eu afastava do meu espírito a possibilidade de um dia vir a casar, considerando que  isso era uma estupidez.No entanto tudo o que aprendí  me foi muito útil ao longo da minha vida.
Ela tentava não  atribuir   importância à vaidade, mas fazia questão que todos fôssemos bem arranjadinhos à missa dominical. Costumava dizer que era uma questão de respeito, que para visitar uma pessoa importante era necessário se apresentar de uma forma digna, e  mais importante que Deus não havia ninguém. Por tudo isso, a nossa entrada na  igreja era sempre um sucesso, toda a gente reparava naquelas quatro crianças de cabelos claros, tão bem comportadas, vestidas ao estilo europeu!
Habituamo-nos a ter reservada a roupa de domingo, mas durante os dias que não saíamos à rua vestíamos de qualquer maneira, não exigíamos vestimenta especial para subir às árvores e também dispensávamos os sapatos. Para as crianças esse despojamento era um sinal de liberdade mas para ela era, seguramente, um indício  de derrota que lhe causava mágoa.