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quarta-feira, setembro 23

A viagem no escuro

Já do avesso virou cada certeza,

E o país que procurava não existe, ainda não existe…

Não tenho grandes lembranças desta viagem, mas tenho a sensação de cansaço e aborrecimento. Durante a noite quase nada se conseguia ver, embora eu e meus irmãos nos arrastássemos ate a beira do camião para espreitar para fora, mas apenas descortinávamos a escuridão, algum carro que passava e por vezes as luzes baças de uma povoação ou casario, os saltos e solavancos daquele carro velho faziam-nos saltar e desequilibrar.
De vez em quando o nosso motorista batia na porta do carro avisando que estávamos perto de uma alcabala, ou seja, um posto de controlo da guarda nacional, o que acontecia sempre que passávamos a fronteira entre estados, ou que estávamos a atravessar uma cidade ou povoação. Nesses momentos era preciso fazer um silêncio completo pois se algo chamasse a atenção podiam fazer uma revista ao carro e a nossa viagem ia por “água abaixo”…
Era difícil manter em silêncio completo duas crianças de três e cinco anos, e ainda um bebé com pouco menos de um ano…mas o pior era manter calado o cão! Sentíamo-nos como se fôssemos uns marginais (não o seríamos?)
De quando em quando o motorista se detinha numa povoação e então nós saíamos discretamente do camião para ir a uma casa de banho, comprar alguns alimentos ou esticar as pernas.
Depois de algumas horas o percurso foi feito numa longa e solitária auto-estrada que atravessava uma planície, nada havia para ver.
Vejo a minha mãe sentada no chão amamentando a minha irmã mais pequena e os meus irmãos adormecerem de cansaço sobre os colchões ainda húmidos, eu não consegui fechar os olhos, nem a minha mãe.
Para animar o caminho o noso cão viajante decidiu enjoar, o pobre animal se agitava inquieto, uivando tristemente entre vómito e vómito…
Mas a natureza decidiu ajudar-nos. Começou a chover. Choveu como só chove naquela terra! O Céu rasgava-se entre trovões e relâmpagos, a chuva, empurrada por forte vento, invadia tudo deixando-nos a todos encharcados, limpando tudo e todos. Uma ponta do oleado se soltou e foi preciso parar o camião para a voltar a amarrar. A marcha era lenta pois quase não se via a estrada através da espessa cortina de chuva!
Mas, como é habitual naquelas paragens, terminada a tempestade o sol surgiu brilhante e o calor intenso e abafado tudo secou fazendo sair da terra o vapor quente que deixava no ar um intenso cheiro a terra.

Continua………..