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quinta-feira, setembro 17

A bolha da vaidade.

A minha mãe ficou sozinha com quatro filhos e sem certezas de quando voltaria a ver o meu pai, os quase mil quilómetros que os separavam faziam-na sentir-se tão distante dele como quando ele saiu da sua ilha.
Entretanto, o ano escolar terminara e eu podia brincar um pouco com os meus irmãos e com as raparigas da vizinhança.
Mas… lembrei-me agora! Algum tempo antes, por altura do Natal, pedi à minha mãe que me comprasse roupa da moda que se usava na época: saia de xadrez rodada, preferivelmente em tons vermelhos, uma blusa branca de colarinho redondo adornada com uma fita de seda, ou cetim, e um colete sem mangas, também vermelho, e claro! Não podiam faltar os sapatos rasos e os soquetes curtinhos. Tudo muito à moda, tal e qual eu via na televisão e nas revistas! Incrivelmente, ela satisfez o meu pedido!
Contudo faltava ainda um pormenor de grande importância, faltava arranjar o cabelo, tinha que ter uma popa frisada e um rabo-de-cavalo bem no alto da cabeça, ora, o cabelo comprido eu tinha, mas a franja era completamente lisa… Precisava de ir ao cabeleireiro fazer uma permanente.
Mais uma vez, a minha mãe acedeu ao meu pedido, talvez porque tomou em consideração a minha idade – eu estava bem perto dos treze anos – ou porque adivinhava os tempos difíceis que se aproximavam, ou quiçá porque eu nunca tinha pedido algo com tanta veemência!
Nessa época as permanentes eram bastante agressivas e demoradas. O cabelo era enrolado num rolo metálico sobre o qual se colocava um envelope contendo produtos químicos que eram apertados com umas molas metálicas, que estavam ligadas à electricidade. O calor era infernal e eu começava a sentir um ardor cada vez mais intenso numa das molas mais próximas da testa, no entanto demorei a me queixar julgando ser natural que queimasse. Quando me decidi a falar a cabeleireira limitou-se a colocar um bocado de algodão para afastar o gancho da pele, mas passado pouco tempo ardia de novo e com mais intensidade.
Quando tudo terminou fiquei feliz ao ver a minha linda poupa ondulada e considerei que tinha valido a pena sacrifício! Mas nos dias seguintes formou-se uma bolha enorme que acabou por infectar e que me incomodava muito, apesar de colocar várias vezes ao dia pomada de Terramicina… o remédio universal da minha mãe, além do chazinho de hortelã, o mentol chinês e o Vick Vaporub, para outras mazelas, e claro!
Apesar de tudo eu andava orgulhosa e feliz por duas razões: pelo meu penteado à moda, e porque a ferida que se formou fazia com que todos me olhassem e me fizessem perguntas … e eu sentia-me importante!
Carrego a cicatriz como recordação até hoje!