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sexta-feira, julho 17

Nó na garganta

Os negócios corriam  mal, ja era impossível continuar com o bar Foram tempos de ansiedade,e inquietações . Já não se tratava de amealhar o dinheiro necessário para construir a casa na aldeia, esse sonho estava inevitavelmente, adiado, agora tratava-se de sobrevivência.
Tudo o que tinham estava investido no negócio, e já não havia mais...Fechar o bar foi, com toda a certeza, a decisão mais difícil que meus pais tomaram.
Faltava ainda o pagamento de algumas das letras acordadas quando da compra ao sócio, este não se encontrava no país mas tinha nomeado um procurador que morava na capital e que nunca aparecia por aquelas bandas. Meu pai precisava urgentemente falar com ele.
Só posso dizer o que vejo ao me lembrar desse dia que nunca vou esquecer e que, ainda hoje, me ata com um nó a garganta.
Anoitecia. Os dois homens encontravam-se na pequena ponte junto ao bar. Sob a luz ténue candeeiro da rua a figura do meu pai originava uma sombra comprida e amarelada. Sinto que nada mais existe, não vejo a minha mãe, vejo apenas aqueles dois homens. Um gesticula agitadamente, o outro baixa a cabeça, fala baixinho. Não consigo descrever os sentimentos dele naquela hora mas consegui sentir o desespero que o assaltava interiormente.
Mesmo sem entender o alcance do que estava a acontecer sentia-me apavorada, era como se o chão me fugisse debaixo dos pés! Percebi que meu pai estava dando o negócio como liquidação de uma dívida que era muito inferior ao valor do equipamento que havia no bar.
Depois de conversar durante algum tempo meu pai colocou nas mãos do homem as chaves do bar, mas ele atirou-as ao chão e exigiu, mais uma vez, o pagamento em dinheiro. Só isso lhe interessava. Ouço meu pai dizer: “Se quiseres, a minha cabeça eu posso dar, mas o dinheiro não, não tenho!” Mas o homem virou as costas e entrou no carro. O meu pai ficou ali, imóvel, amargurado, olhando para automóvel que desaparecia na estrada escura. Naquele momento era o homem mais solitário do mundo.
Depois, tomou a minha mão e, em silêncio, regressamos para casa. Agora já vejo a minha mãe, ela vai connosco. Chora baixinho… Sofreram toda a vida por não terem conseguído pagar aquela dívida. É em momentos como este que constatamos que o destino não está nas nossas mãos e nos fogem todas as certezas…

Já do avesso virou cada certeza
E o país que procurava não existe
Ainda não existe
in: Um Barco Para Itaca