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quarta-feira, julho 8

Coração partido ao meio.

Ainda voltarei para dar a conclusão da história do chihuahua.
Entretanto…
Talvez fosse Henrique o único a insultar o meu pai pelo facto de ser imigrante. As pessoas eram, e são, muito comunicativas e generosas e faziam tudo para que os estrangeiros gostassem do seu país, do qual eram muito orgulhosos. Apenas não estimavam aqueles que não gostavam de estar ali. A esses diziam que podiam ir embora.
Nessa época muitos imigrantes, sobretudo aqueles que tinham algumas posses, tinham o hábito de enviar as mulheres para a sua terra natal quando estas estavam grávidas, para que os filhos nascessem lá, mas depois de alguns meses, regressavam… Recordo que numa ocasião, durante a celebração da missa, no momento da homilia, o sacerdote censurou este hábito, considerando que era uma ingratidão para com o país que os tinha acolhido tão bem e que nunca os tinha feito sentirem-se estrangeiros.
Isso não aconteceu com os meus pais, todos os filhos nasceram naquela terra, sendo eu a única estrangeira. Desde sempre senti que aquele não era o meu lugar, mas sei hoje que ainda não encontrei o meu lugar. A casa onde habito não é casa onde moro.
Quem emigra sente-se sempre estrangeiro mas, com o passar dos anos, todos dividem o seu coração. Depois de algum tempo algo começa a mudar, a terra que os viu nascer é o lugar onde todos querem regressar, mas as recordações vão-se esfumando e as saudades são cada vez menos dolorosas, enquanto esse outro país se transforma no seu lar, onde os filhos crescem, onde a língua se mistura de uma forma desordenada e os ritmos se entranham no corpo juntamente com o calor que aquece os dias…
Para o meu pai foi mais fácil, ele não se sentia amargurado com a ideia de ficar naquele lugar, mas a minha mãe tinha o coração partido ao meio.