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terça-feira, julho 14

Algo sobre mi madre

O rosto da minha mãe, outrora claro e fino, tinha agora uma leve patina amarelada e os sulcos a ambos lados do nariz conferiam ao seu sorriso uma expressão triste e céptica. Até os cabelos claros mudavam de cor, tornaram-se acobreados pelo sol e os olhos verdes vivos, começavam a perder o brilho.
Ela era uma mulher inteligente e medianamente culta. Tinha concluído a quarta classe e realizado o exame de admissão aos liceus o que, nesse tempo, era acima da média da população tratando-se, sobretudo, de uma mulher de uma povoação perdida, numa ilha esquecida no Atlântico.
Teria prosseguido estudos se o pai não tivesse morrido, para isso contava com o incentivo da madrinha que era professora primária mas… o pai morreu, a madrinha reformou-se e foi viver para a cidade e ela, pouco depois, começou a namorar.
Desde muito jovem que compunha quadras e pequenas canções para as romarias da aldeia e redigia longas cartas, primeiro para o marido e depois para a mãe os irmãos. Eu me lembro de ver algumas quadras escritas por ela onde falava da nova vida e do novo país. Toda a vida a ouvi dizer que gostaria de escrever um livro. A sua caligrafia era quase artística e a ortografia muito correcta. Ela sentia um certo orgulho por isso.
Quando partiu da sua terra sentia-se cheia de confiança, era muito jovem e alegre e estava decidida a fazer todos os sacrifícios para realizar o seu sonho.
Mas, ao fim de poucos anos percebeu que para alcançar esses sonhos não bastava querer…