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terça-feira, junho 2

O início do fim do sonho


Foram tempos conturbados, com a revolução o país ressentiu-se economicamente, as obras em curso paralisaram, apareceu o desemprego, a sociedade agitou-se…
O meu pai fechou o hotel e nos mudamos para uma casa nas proximidades. Foi o começo de uma série de mudanças que nos levaram através de quase todo o país.
Eu comecei a demorar a entrega do aviso de pagamento da escola.
Sabia o que estava a acontecer, as dificuldades que meus pais sentiam para cumprir com o pagamento de uma mensalidade que, agora, parecia muito elevada, mas… ninguém me entendeu!
As freiras começaram a se aborrecer comigo porque eu dizia que me tinha esquecido de entregar o aviso a meus pais, e eles zangavam-se comigo pela mesma razão…
Os tempos que se seguiram foram muito complicados, não sabia ao certo o que podia esperar, ver os meus pais angustiados fazia com que me sentisse insegura e revoltada. Comecei a ter duas formas de vida distintas: na escola continuava a ser uma excelente aluna, bem comportada e sempre com boas notas; em casa era uma menina revoltada e, aparentemente, desobediente.
Aparentemente porque fingia desobedecer. Escondia-me em algum canto da casa, durante horas, deixando que a minha mãe me procurasse por todo lado até ficar desesperada.
Numa ocasião em que quase toda a vizinhança foi à cerimónia de inauguração de uma auto-estrada que passava a uma centena de metros de distância, como não me deixaram ir, sai de casa, corri durante alguns metros até ficar fora do alcance da vista dela, e me escondi entre uns arbustos, onde fiquei, até me aperceber de que as pessoas começavam a regressar da cerimónia, só então regressei para casa, assustada, mas fingindo estar satisfeita e dando a entender que tinha feito a minha vontade e que era dona do meu nariz!
Sabia o que me ia acontecer, nos últimos tempos os castigos eram frequentes, mas desta vez foi muito mais duro. De nada me valeu a desculpa de que, em realidade, não tinha ido à festa portanto, não tinha desobedecido…
No dia seguinte eu não quis ir para a escola pois não havia maneira de disfarçar os vincos do cinto nas minhas pernas. Mas… desta vez obedeci e fui para escola!
Eu fazia aumentar o peso dos castigos porque nunca me calava, nem pedia perdão.
Eram tempos diferentes, os correctivos faziam parte da educação e eram aceites e praticados por quase todos os pais, em quase todo o mundo.
Era um tempo difícil para meus pais e o meu comportamento não ajudava nada…
Preciso me justificar.
Em realidade a minha mãe e eu tínhamos uma relação de bastante confiança. Desde que me tornei sua confidente que conversávamos durante muito tempo sobre quase tudo, ela era, geralmente, bem-humorada e sempre teve tempo para falar e brincar com os filhos. Manteve sempre em si uma parte de criança, até hoje…