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sexta-feira, junho 5

Historinhas escolares


Quando saiu da aldeia a minha mãe deixou para trás não apenas a família, deixou também as amigas, as verdadeiras amigas de infância, aquelas com quem tinha crescido e partilhado alegrias e desencantos.
Encontrava-se agora numa terra diferente e longínqua onde as únicas referências familiares eram o meu pai e eu. Fazer novas amizades não foi fácil, até posso jurar que, na verdade, ela nunca mais teve ninguém a quem pudesse dar esse nome.
Ela tinha muita desconfiança das pessoas e muito receio das intrigas, particularmente das mulheres do seu pais, quanto às naturais, estabelecer relações de amizade com qualquer uma delas estava fora de questão, considerava que tinham um modo de vida e valores muito diferentes e ela não estava na disposição de transigir dos seus, os quais considerava infinitamente superiores. No entanto, era simpática e amável com todos e a vizinhança gostava dela.
Desde muito cedo eu me tornei na sua confidente, ela falava-me das suas alegrias e tristezas, sonhava em voz alta obrigando-me a mergulhar no seu delírio onírico.
Foi assim que fiquei a saber da sua desconfiança em relação ao meu pai, as dúvidas sobre a fidelidade dele, o medo que a assaltava ao pensar que poderia não voltar à sua terra, as saudades que sentia da mãe e dos irmãos…
Foi assim que comecei a aperceber-me de que os negócios não andavam bem, foi assim que eu comecei a sofrer quando ela sofria… e a detestá-la por isso.
Começava a consentir a solidão, fechou-se num numa redoma e encerrou nela marido e filhos, o desejo de regressar à sua aldeia era o que a mantinha em pé.