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quarta-feira, maio 27

o novo colégio

Meus pais viram-se confrontados com a necessidade de encontrar uma outra escola para mim, na qual eu pudesse fazer a minha aprendizagem e que, ao mesmo tempo, desse continuidade às minhas raízes religiosas.
O melhor colégio das redondezas era o colégio Nuestra Senhora de La Merced, situado numa zona residencial de luxo, era dirigido por freiras espanholas. Era também o mais caro ,todavia, esta foi a escolha deles.
Erguia-se no alto de uma colina e tinha uma arquitectura moderna com colunas de mármore e chão de granito preto, muito brilhante, uma pequena capela onde todas as tardes rezávamos o terço e onde, nos dias especiais, se celebrava missa e uma vez por semana um padre mercedário ouvia alunas e freiras em confissão
Esta foi a minha segunda escola da qual tenho as melhores recordações, onde fiz muitas amigas e as freiras eram doces e amigas, contrariamente àquilo que se diz ao falar de colégios de freiras!
Era um colégio exclusivamente de meninas de um estrato social elevado, estudavam ali filhas de ministros, de grandes empresários e de gente endinheirada, mas acolhiam também meninas órfãs e as filhas das funcionárias da escola. Eu não encaixava em nenhum desses grupos.
Lembro com saudade a Irmã Consuelo e a Madre Trinidad, que nos davam as aulas de religião e lavores durante as quais aproveitávamos para conversar sobre assuntos que nos intrigavam e a que elas respondiam sempre com doçura.
Nesse tempo eu jurava que havia de ser freira, quase chorava de emoção ao pensar na santidade que eu ia ter devido às minhas obras. Ainda mais me convenci quando um frade missionário que passou pela escola nos contou as suas aventuras nas missões e, sobretudo, depois de ter comido as formigas fritas que ele nos deu a provar!
Mas era verdade que a ideia de despojar-me de tudo me dava grande satisfação.
A Irmã Consuelo era uma jovem gorducha que tomara os hábitos ainda há pouco tempo. Ela mostrava sempre um sorriso feliz e era muito condescendente e amável. Numa ocasião algumas de nos conseguimos persuadi-la a mostrar fotos anteriores à sua entrada no convento, o que ela fez, e pudemos sentir a sua emoção e saudade da família. Descobrimos então uma bonita jovem de longa cabeleira, sorridente em companhia dos pais e irmãos, que tinham ficado longe, nas Astúrias.
Este facto valeu-lhe uma reprimenda por parte da Superiora pois as freiras não tinham permissão para falar da sua vida particular. Mas nós ficamos a gostar ainda mais dela.
A Madre Dolores era mais arisca. Tinha sempre a pele irritada e avermelhada, era ainda jovem mas exasperava-se facilmente. Era também a professora de matemática. Nós atribuíamos o seu mau humor à falta de vocação, suspeitávamos que tinha sofrido um desgosto de amor e, por essa razão, se tinha convertido em freira. Nesse tempo as freiras vestiam o hábito até aos pés e a touca cobria-lhes o pescoço, apenas o rosto ficava descoberto, o que devia ser um suplício, considerando o clima quente e húmido daquelas paragens, talvez por isso a intimidade das freiras espicaçava a nossa curiosidade, queríamos saber se elas tomavam banho nuas ou se eram carecas, conforme os boatos que corriam...
Chegamos a formar, entre as internas, grupos destinados a espiar as monjas e tentar descobrir o mais possível da vida íntima das mesmas, mas não descobrimos nada relevante e todos os boatos ficaram por confirmar, até hoje!
As meninas que já tinham completado os 12 anos foram convidadas a permanecer na escola depois de finalizar as aulas, para ver um filme. Os pais foram informados que depois da sessão todas seriam levadas a casa no autocarro escolar. As felizes contempladas ficaram loucas de alegria! Sentimo-nos importantes e crescidas, adivinhamos que seria um filme para senhoritas.
Chegou o dia tão esperado e, lá estávamos nós, no salão de teatro, sentadas mas muito inquietas. De costas para nós uma das irmãs impunha a sua presença, enquanto no final da fila fechando o cerco, encontrava-se a Irmã Dolores.
Faz-se penumbra e o filme começa a rolar. No silêncio da sala apenas ouvíamos o ruído do projector desenrolando a fita. Era uma simples história de amor que se passava no algures tempo bíblico, não tinha som, o que nos obrigava a imaginar os diálogos.
O filme retratava uma cerimónia de casamento e uma alegre festa onde os noivos davam um cândido beijo – para nós esse foi o ponto alto do filme – beijo esse que ninguém viu, pois no momento certo todas olhamos para trás para examinar a reacção da freira! E juramos que a Irmã Dolores ficou mais vermelha do que o costume e com o olhar preso no chão…o que confirmou a nossa suspeita de que ela tinha tido uma história de amor secreta! O nascimento de uma criança marcava o fim desta história.
Nos dias seguintes as conversas andavam à volta do filme e da reacção da irmã Dolores...Também o nascimento do bebé nos intrigava: se não havia hospital, se o parto se deu numa humilde casota, se não havia médico, então...como nasceu o bebé?
Todas as ideias que nos ocorriam pareciam improváveis por isso, chegamos à conclusão que certamente, os bebés nasciam...pelo umbigo… e deixamos de falar no assunto.
Se a ideia era transmitir alguma informação às rapariguinhas mais crescidas, o resultado não foi muito satisfatório.