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sábado, maio 23

A escola


A minha entrada na escola não foi um sucesso.

A escola era um grande edifício, inaugurado a pouco tempo pelo General que detinha o poder; tinha o nome de um caudilho índio:«Guaicamacuto», que enfrentara até à morte os invasores espanhóis. Era uma escola pública com todas as condições para os alunos que a frequentavam desde o 1º até ao 6º ano, o que correspondia à educação primária.

Intimidou-me um pouco, habituada como estava a um meio pequeno onde todas as pessoas se conheciam, e onde a escola da aldeia tinha apenas uma sala de aula na qual se misturavam os alunos de quatro classes, e cujo ensino era ministrado por uma única professora.

Vinda há pouco tempo duma terra distante falava muito pouco da nova língua, assim, fui alvo fácil da troça dos meus colegas, que se divertiam gozando do meu acento e da minha dificuldade em exprimir-me nesse idioma, não me davam sossego, eram cruéis como sabem sê-lo as crianças.

Em certa ocasião uma das cadeiras da sala apareceu partida e quando a professora perguntou quem tinha causado tal estrago, alguns apontaram para mim.

Fiquei muito corada sem conseguir pronunciar uma palavra...

Desse modo aceitei uma culpa que não era minha e meu pai foi chamado à escola para pagar o prejuízo! Nos dias seguintes recusei-me voltar à escola.

Havia ainda outra razão para eu não querer ir para esta escola. Mary era filha de emigrantes espanhóis, que moravam ainda no hotel, foi minha primeira amiga naquele país; ela tinha um irmão a quem chamavam Pituco, embora o nome dele fosse Pedro.

Ligeiramente mais velho do que eu, era baixinho e atarracado, eu achava-o horroroso e antipático.

Chocamos desde o primeiro dia, ele não perdia a oportunidade de me provocar e eu, de o desafiar. Tinha pena que a minha amiga tivesse um irmão assim tão mau! Estávamos ambos na mesma escola por isso, fazíamos o mesmo percurso a pé.

Nessa época eu ainda tinha umas longas tranças que me chegavam até à cintura e, sempre que tinha oportunidade, o brutamontes, divertia-se dando-me fortes puxões de cabelo enquanto ria a bandeiras despregadas! Mais do que uma vez me arrastou puxando por elas, rua abaixo, qual homem das cavernas!

Quando finalmente conseguia soltar-me corria loucamente até casa, onde chegava ofegante e achincalhada, congeminando mil maneiras terríveis de vingança, tão terríveis que nunca as cheguei a concretizar... Nunca disse nada a meus pais pois ele ameaçava fazer-me coisas ainda piores se eu falasse!

Decidida a acabar com aquele sofrimento peguei na tesoura da minha mãe e cortei a trança...Ao mesmo tempo desenhei uma franja de diferentes tamanhos, que a minha mãe, em pânico, tentou remediar sem grande sucesso, diga -se de passagem…!

Poucos dias depois deste meu acto de coragem, foi realizado o baptismo do meu irmão, e é assim que apareço na foto de família, ao lado da minha mãe, meu pai e os padrinhos, de braços cruzados ao peito, com um lindo vestido bordado pela minha tia da aldeia, feito especialmente para ser usado esse dia, com o cabelo muito curto, uma franja minúscula e um misterioso sorriso de Mona Lisa no rosto...