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terça-feira, maio 12

Devoção

Ir à missa de Domingo continuava a ser uma obrigação da qual a minha mãe não tencionava abdicar. Todos os domingos e festas de guardar vestíamos as melhores roupas e dirigíamo-nos até à Igreja mais próxima que era também o local de encontro de outros conterrâneos que, no final da celebração religiosa, se juntavam no adro em amena cavaqueira para contar as alegrias e desgraças de uns e outros.

Meus pais eram devotos mas, em boa verdade, a minha mãe era bem mais respeitadora e exigente. Recordo como me fez jejuar em todas as sextas da Páscoa até à Sexta-feira Santa a partir dos meus sete anos idade que ela dizia ser da “razão”, a partir da qual já era responsável pelos meus actos. Lembro-me como me custava aquele sacrifício porque era nesses dias que tinha mais vontade de comer gelados e rebuçados! Mas recordo também a paz que sentia por ter cumprido o meu dever.

Também era costume ver um filme sobre a Paixão de Cristo, vi incontáveis vezes o “Jesus de Nazaré” e “A Paixão de Cristo”, em todos eles eu me esforçava para sair do cinema banhada em lágrimas, mas tinham que ser lágrimas sinceras! Quando não conseguia chorar sentia-me muito má por não ter vontade de sofrer como Ele… Foi maravilhoso quando surgiram filmes como “os Dez Mandamentos” ou “ Ben-Hur” que ainda por cima eram em ecrã gigante, a cores e dispensavam as lágrimas!

A ideia de pecado foi-me inculcada muito cedo, tanto que até cheguei a ter medo dos meus pensamentos dado que nada escapava ao olho clínico de Deus...Foi assim durante muitos anos, até o dia em que um sacerdote quase me expulsou do confessionário e me proibiu voltar lá para contar os meus maus pensamentos! Foi um alívio mas também uma grande angústia, já não sabia se os maus pensamentos eram maus ou o padre era um enviado do demónio! Claro que nunca disse nada disto à minha mãe...

Todas as noites rezávamos o terço, a isso teve que acostumar-se meu pai pois a minha mãe sabia que durante os anos de separação ele tinha descuidado essa devoção. Muitas vezes eu adormecia durante a repetição monótona das orações e outras vezes fingia ter adormecido mas a minha mãe, implacável, dirigia-me um olhar reprovador e na sua atitude austera, muito direita, de joelhos e mãos cruzadas sobre o peito, me fazia sentir indigna e me obrigava a pedir perdão por esta falta.