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domingo, maio 17

Confissão


Poucos dias antes de fazer a primeira confissão, juntamente com duas primas mais ou menos da mesma idade, cometi um pecado terrível: roubei!
No quintal de uma vizinha havia um pereiro carregado de peros ainda muito pequenos e verdes, aproveitando que ninguém estava por perto, atrevemo-nos -tirar alguns que, depois de os trincar, deitamos fora, tal era o azedume dos pequenos frutos.
Ao chegar o dia da confissão, ao peso de esse crime e a necessidade de o confessar, juntava-se o medo e a vergonha. Tínhamos aprendido que roubar era um grande pecado e que, sempre, em todos os casos, tinha de ser restituído o fruto de tal roubo.
Como podia ter perdão!? É que, confessar eu podia, mas... como devolver a fruta?
Foram dias de angústia e reuniões entre o grupo de “criminosos”, mas sabíamos que tínhamos que enfrentar as consequências desse pecado...
Finalmente chegou o dia mais temido e, cheias de coragem, enfrentamos o padre no confessionário. Já não me lembro o que ele disse, imagino hoje que terá achado graça mas, nesse mesmo dia, fomos pedir perdão à dona dos peros depois de rezar algumas orações como penitência.
Quando chegou o dia da Primeira Comunhão entrei orgulhosa na igreja, vaidosa no meu vestido de organdi até aos pés, com folhos na saia, as mangas tufadas e um grande laçarote de seda no cabelo.
Os meus cabelos longos tinham-se transformado num emaranhado de caracóis graças à paciência da minha mãe que, no dia anterior, embrulhara cada madeixa de cabelo em papel de seda, e graças também à mim, que suportei estoicamente cada esticão de cabelo em nome da vaidade! Mas o resultado foi excelente e ali estava eu, feliz e orgulhosa, comparando o meu lindo vestido branco com o das outras meninas.
Engoli muito devagar a hóstia para não magoar o corpo de Jesus. Era o que faltava! Depois de tudo o que Ele tinha sofrido por nós…