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quinta-feira, abril 30

Um pouco mais...



Nunca me tinha separado da minha mãe, por isso, não entendi quando essa noite, a primeira noite naquela terra estranha, no dia em que descobri o meu pai, tive que dormir sozinha enquanto ela me trocava por aquele pai-homem-extranho.
Depois de tantas emoções controversas que dificilmente conseguia assimilar ou entender, o chão fugia debaixo dos meus pés, percebia agora, com toda clareza, que a minha vida tinha mudado. Já não sabia se estava a gostar...mas ninguém me podia ajudar.
O quarto que me coube em sorte era uma pequena arrecadação dividida por uma velha cortina de flores azuis desbotadas que escondia móveis e toda espécie de objetos em desuso. Para mim tinha um pequeno divã, um cadeirão empoado e um esguio lavatório amarelado.
Não entendia o que estava a acontecer mas fingi aceitar como se tudo fosse natural, no entanto, dentro do meu peito havia um grito que não deixei escapar. Na manhã seguinte a essa primeira noite os meus olhos não se cruzaram com os da minha mãe. Guardei para mim toda essa angústia e nada falei.
As minhas noites passaram a ser um pesadelo! As velharias por detrás das cortinas mexiam-se durante a noite, aterrorizava-me o estalar das madeiras velhas e os ruídos provocados por pequenos insetos. Na insónia dessas noites terríveis, a minha alucinada imaginação fazia-me pensar em toda a espécie de monstros ou demónios que ameaçavam surgir em qualquer momento! Ficava imóvel na cama tapada até a cabeça pelo fino lençol, nos meus pequenos sete anos rezava todas as orações que tinha aprendido até que, vencida pelo cansaço, adormecia.
Não lembro quantas noites destas se passaram, para mim foram uma eternidade! Mas houve uma noite em que o quarto ganhou mais vida do que era habitual e não consegui suportar! Saltei horrorizada da cama e fugi rapidamente para o pátio antes que algo surgisse debaixo da cama e me agarrasse os pés, com os olhos quase fechados, corri até o quarto de meus pais e desatei a bater furiosamente à porta!
Eles deixaram-me entrar e olharam-me com surpresa. Perceberam o meu medo e deixaram-me ficar com eles essa noite. Perceberam o meu medo mas não perceberam todos os sentimentos que amarguravam o meu coração.
Nessa noite, uma sensação de triunfo e culpa me invadiu...