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domingo, abril 26

A aldeia onde nasceram.

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A aldeia onde nasceram era um minúsculo pedaço de terra que desafiava o mar. Com altas rochas como fronteira, tinha uma igreja, um cemitério que parecia um jardim e um senhorio que possuía o engenho de açúcar e a maior parte das terras. Como vias de comunicação tinha íngremes veredas que serpenteavam perigosamente a montanha, e o mar. A luz eléctrica era um privilégio das cidades e o automóvel não chegava lá. As pessoas importantes do lugar eram transportadas em redes por alguns dos homens da aldeia até a freguesia mais próxima, onde já era possível encontrar algum automóvel, subindo as escarpas ao som de dos seus cantos e assobios
Mas naquela terra as crianças podiam brincar descalças e sentir a vibração do planeta sob os seus pés e sujar-se de pó de terra, as meninas faziam sandálias com bocados de telha atados com palha de bananeira e bordados em folhas de correola e os rapazes com barquinhos feitos com o caule da bananeira, pescavam peixinhos verdes e caçavam lagartixas.
Era uma terra onde se partilhavam os fornos de pedra para fazer o pão, os bolos e as broas e assar a carne no Natal. Na Páscoa jogava-se ao “belamente” e se faziam as malassadas em conjunto.
Era onde nas vésperas do natal, se faziam as missas do parto de madrugada e depois se iam provar os licores dos vizinhos para mais tarde ensaiar as romarias que entrariam na igreja na noite de natal.
Era onde nos telhados só poisavam as chaminés e os pássaros. Tinha o céu mais iluminado do mundo, ali podiam contar-se uma a umas as estrelas do céu e nas noites de luar o mar calmo tinha o brilho da prata!
Era a terra onde à noite os jovens se juntavam no largo para cantar e as velhas para bilhardar, onde a noite podia terminar com uma serenata à beira mar e, nas noites sem luar, os namorados e os amantes marcavam encontros usando candeeiros a petróleo para fazer sinais e enviar mensagens de amor. Isto contava a minha mãe com um brilhozinho malicioso nos olhos!
As estreitas ruelas e terreiros eram calcetados com redondas pedrinhas da praia e as águas que brotavam da rocha desciam livremente até às levadas que percorriam toda a aldeia, inundando tudo com a sua canção de água, como não se ouvia em mais lugar nenhum! Onde o vento fazia sussurrar as canas e à beira das levadas cresciam agriões e tomates selvagens.
Era uma terra de gente trabalhadora e de carácter, orgulhosa de seus pais que tinham roubado ao mar cada centímetro de terra erigindo paredes de pedra para a segurar, transformando aquele lugar num imenso balcão, um jardim sobre o mar...