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domingo, abril 26

Mais um pedacinho...

Escreveu mais uma vez ao seu homem e pediu uma “carta de chamada”, antes que ele também esquecesse a mulher, a filha e o amor por ambas e decidiu partir ela também, deixando que a saudade se instalasse, impiedosa, no seu coração. Não queria ser mais uma dessas viúvas de marido vivo, daqueles que saíram um dia rumo ao Brasil, aos Estados Unidos ou África do Sul deixando uma mulher com um ou três filhos nos braços e nunca mais se ouviu falar deles.

A minha mãe era uma mulher linda de grandes olhos verdes e cabelo castanho claro que ela usava penteado numa longa trança e tinha uma pele lisa e alva, no entanto eu sempre quis ser parecida a meu pai. Ele era o meu herói e o que eu mais desejava era conhece-lo, por isso, quando soube que íamos viajar para a terra onde ele se encontrava fiquei louca de alegria, sem pena de deixar tudo e todos. Apenas a minha avó me fez chorar na despedida, mas a alegria de conhecer o meu pai sobrepôs-se a tudo e todos.

Desses tempos tenho apenas pequenos retalhos e sensações.

Lembro-me da pequena canoa que nos arrastava pelas ondas até à lancha que nos ia transportar para a cidade onde havíamos de passar meses intermináveis tratando dos documentos que nos permitiriam partir ao encontro com o meu pai.

Sinto ainda o cheiro nauseabundo da embarcação, uma mistura de óleo e peixe, a sua marcha lenta, o embalar das ondas que nos revolvia as entranhas, e os rostos esverdeados das pessoas, ansiosas por chegar a terra firme, trémulas, de olhar vago, já sem vontade para partir ou para ficar.

Todos eles iam deixar a sua terra natal ferindo o coração com a maldição da saudade, quer fossem bem sucedidos ou não, mesmo que voltassem um dia á sua terra a partir de então estaria para sempre dividida.

O meu coração quer saltar do peito! No convés do navio a minha mãe levantou-me nos braços para que eu pudesse ver melhor enquanto procurávamos ansiosas por entre multidão que se acotovelava na doca, o rosto do meu pai.

- Olha ali! È aquele! O da camisa amarela! -

Sei que olhei, acenei…e fechou dentro de mim uma amálgama de sentimentos e emoções inexplicáveis. Nesse momento descobri que o meu pai era, afinal, um estranho, um estranho de camisa amarela, um rosto igual a outros tantos… não se deu o milagre.

Não consigo ver o rosto do meu pai naquela hora. Não vi o reencontro deles. Sinto que me tomam nos braços mas não me lembro dos beijos, os abraços ou as palavras, sei apenas que uma grande confusão se instalou em mim...