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quinta-feira, abril 23

Historia aos pedacinhos.



É um dia de Junho. Lembro-me do calor, do céu pesado como chumbo e das águas avermelhadas do porto,depois de treze dias intermináveis, o velho vapor «Irpínia» ancorava, por fim ,no porto.O momento mais esperado se aproxima: finalmente, vou conhecer o meu pai!
Cinco anos antes tinha ele saído da pequena aldeia, numa também pequena ilha perdida no Atlântico,
__ Será só por dois anos, o suficiente para arranjar algum dinheiro para melhorar a nossa vida e fazer uma casinha - disse ela à minha mãe.
Com pouco mais de vinte anos, cheio de medo e ilusões, partiu à procura da vida que a sua terra lhe negava.Como ele, tantos outros partiram deixando para trás mãe, filhos, mulher, irmãos... Quantas lágrimas ficaram no cais, quantas saudades...
Muitos esquecer-iam depois a terra, as lágrimas e os corações que ficaram na aldeia, deslumbrados pelo novo mundo que se abria à sua frente, enquanto as mulheres, tal como as de Atenas, ficavam à espera como viúvas, bordando no linho, ponto a ponto, a beleza que as suas vidas não tem, enfiando na agulha cada dia mais um fio de tristeza e esperança,outros haviam de ficar para sempre divididos.
A minha mãe não queria bordar, por isso, quando os dois anos de espera se esgotaram e já eram cinco, as cartas cada vez mais raras e desapegadas, deixou o bordado. Olhou as altas rochas que rodeavam a sua aldeia,  chorou à beira do  mar infinito, e decidiu que era hora de agir.


«Altas são as montanhas.E as águas do mar são vastas.
Partir ou não partir.De qualquer modo ousar.
Pois o tempo é de agir
E as palavras estão gastas »
Manuel Alegre in «Um barco para Ítaca»