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sexta-feira, abril 14

Chegar


Os meus pés pareciam não tocar o chão, toda eu pairava no ar. Não sei descrever os sentimentos que que me avassalavam nesse momento.
 Era uma noite de Inverno, chovia mansamente, o céu escuro não mostrava o brilho das estrelas, e a lua escondia-se detrás de nuvens enegrecidas e densas. Tudo à minha volta parecia estar mergulhado na escuridão. É assim que recordo essa noite.
Recolhi a bagagem e ao sair do edifício ouvi alguém pronunciar o meu nome, virei-me e rapidamente me vi rodeada por duas mulheres jovens que me abraçavam e me empurravam até um táxi. Conhecia-as, mas não sabia quem eram… Ah! são as duas primas que estiveram no aeroporto pacientemente, durante todo o dia, devido ao atraso do voo. Ainda tínhamos uma longa viagem pela frente antes de chegar à aldeia, percorrer os 69 km de estrada levaria mais de duas horas. Naquela ilha filha de um vulcão de serras cortadas a pique, os caminhos subiam e desciam, contornavam as montanhas escarpadas, desciam vertiginosamente até o nível do mar para poucos minutos depois estar novamente junto à serra e, através de estreitas estradas desciam, outra vez, oferecendo uma paisagem estonteante.  
 Uma ilha com apenas meia centena de quilómetros de ponta a ponta, se medida a direito, conseguia, através de sinuosas estradas, duplicar o seu tamanho.

Apenas enxergava as luzes do táxi verde e preto que iluminavam a estrada. Ao atravessar a cidade, a profusa iluminação de Natal me deslumbrou, mas logo depois, mergulhamos na escuridão encontrando apenas, aqui e ali, as luzes baças de uma ou outra aldeia e o breu ao atravessar um furado, isto é, um pequeno túnel escavado na rocha, assustador, estreito, de pedras à mostra, salientes, agressivas como a boca de um leão. Não estava habituada a esta realidade por isso tudo me surpreendia e maravilhava. Só pensava em chegar. Enquanto não chegasse à aldeia não tinha chegado a casa, estava na terra de ninguém. As vozes que se ouviam durante a viagem parecia virem de longe, como um eco.

quarta-feira, abril 12

História em PedacinhosII

  Nesse dezembro de 1973 já cheirava a Natal e o ar estava impregnado de sons próprios da época. Ouviam-se as gaitas e villancicos em todas as ruas, e as casas, de portas sempre abertas, deixavam escapar o entusiasmo e alegria natalicia.
Naquelas parágens o Natal era quente e propício para férias na praia. Na falta de pinheiros e neve, improvisava-se com ramos secos, pintados de branco, engalanados com fios de algodão, para fazer lembrar a neve,e bolas coloridas e brilhantes. É certo que haviam também árvores artificiais, verdes, brancas, prateadas, e até pinheiros verdadeiros importados do Canadá, para quem tinha posses. Para nós era muito divertido preparar os ramos secos, pintá-los e enfeita-los. Para os que vivem nos trópicos, o verdadeiro Natal devia ser frio e com muita neve, igual aos postais que se distribuiam na época e os filmes da TV.
E foi neste ambiente festivo que recebemos uma triste notícia. Eu não podia saber que a carta chegada nesse dia havia de mudar radicalmente a minha vida, uma notícia trágica que se transformou num motivo de espectante alegria.
A minha avó estava doente, e dado a idade já ser muito avançada, era de esperar um fatal desenlace. O remetente da carta, a irmâ da minha mãe, lembrava que, se alguém a quisesse encontrar com vida, tinha que se apressar.

Eu ja pouco me lembrava da minha avó, ténues recordações aqueciam o meu coração, mas já não conseguia visualizar o seu rosto.
Mostrei-me muito triste. Subitamente a vontade de a ver se tornou numa necessidade insuportável. Era mais do que isso: sentia que tinha que ir.
Não contava que o meu pranto e teatral angustia fizessem eco no coração dos meus pais, pois sabia que a situação económica continuava difícil, no entanto as minhas preces foram ouvidas, e quando dei por mim, estava no aeroporto pronta a iniciar a viagem que me havia de devolver à ilha, dezoito anos depois.
Tinha agora 24 anos, mas continuava sendo uma criança. Uma criança mascarada de mulher.





quarta-feira, abril 5

quarta-feira, novembro 23

Historia em Pedacinhos


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domingo, janeiro 10

Ela e eu

Apresento-vos a  protagonista desta história , a minha mãe,
quando ainda estava na aldeia e tinha os sonhos intactos..

domingo, julho 6

E ela vem assim..nos assalta de surpresa, como um ladrão....deixa-nos um nó na garaganta e a alma como um trapo sujo esquecido no beiral de uma janela...
É a saudade.

quinta-feira, julho 3

Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.

Sophia de Mello Breyner

domingo, maio 5

Para a Mãe

"
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava,
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

P'ra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe..."


José Régio

domingo, abril 28

http://angelinosantana.blogspot.pt/

quinta-feira, janeiro 31

Crónicas da cidade


Uma empregada doméstica ,uma negra alta e forte,passeia por uma das avenidas novas de Lisboa duas crianças, leva-as seguras com trelas.. as criancinhas,brancas e enfezadas ,tem um ar apalermado,deslumbrado, mas parecem felizes,tentam correr dando puxões, arrastando a mulher. Ela mal consegue disfarçar o seu aborrecimento, parece mesmo infeliz e envergonhada... Por pouco se cruza com um jovem executivo, de fato e gravata, que segura  com a trela um grande cão , creio que é um boxer,...o animal vai apressado puxando o dono. O dono também tem pressa...Não vi se levava um saco de plástico...









terça-feira, novembro 13

Deito-me tarde...


Deito-me tarde,
Espero pelo silêncio que nunca chega cedo,
Espero o silêncio para encontrar-me,
E descobrir o que hoje sou.

Mas tenho medo,
Na sombra que o espelho reflete
Não me reconheço...
E as palavras para dizer o que sinto,
Não existem. Ainda não existem.

Árvore cansada de ramos estendidos para o mar,
Esbranquiçados pela maresia do tempo

O silêncio chega tarde,
Tão tarde que por vezes adormeço,
E no sonho do espelho já me reconheço.

Então sou explosão, lava ardente,
O rugido do vulcão que deu à luz,
A terra quente onde nasci.

Sonho que acordo o vulcão que um dia fui.
 
 
 
M:G. Numa noite imsomnia...

quinta-feira, setembro 27

O PAÍS DO QUEIXA-ANDAR



A Porta

Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:
- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar. De novo, se escutaram protestos:
- Nao deixa entrar, esses não são a maioria.
Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
-Não abre! Esses não são originais!
E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...
E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!
O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.
Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.
Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.
 Um texto delicioso e realista de
 Mia Couto, Do livro: O PAÌS DO QUEIXA-ANDAR.
A minha falta de tempo e inspiração me obriga  a usar o génio de outros...


 

segunda-feira, março 12

Sol de inverno...na ilha.

sexta-feira, janeiro 13

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. 
É o meu caso. 
Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. 
Alberto Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice.
Como estou velho, ganhei coragem. Vou dizer aquilo sobre o que me calei: 
O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados, invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: A democracia é o governo do povo. 
Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. 
Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. 
Nada mais distante dos textos bíblicos. 
Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. 
Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras ideias. Amava a prostituição. Pulava de amante em amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão.
Até que ela o abandonou. 
Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos. E o que foi que viu?
Viu a sua amada sendo vendida como escrava.
Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre.". 
Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. 
O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. 
No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. 
Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas.
As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. 
Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.
Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. 
Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. 
É sobre esse pressuposto que se constrói a democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. 
O povo é movido pelo poder das imagens e não pelo poder da razão. 
Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. 
Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras.
O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. 
Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. 
Uma coisa é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo.
Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. 
Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer. 
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos. 
Mas, que posso fazer? 
Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol.
Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção.", 
Isso é tarefa para os artistas e educadores.
O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.

Rubem Alves 
... colunista da Folha de S. Paulo ...
 Roubei  aqui: http://tukakubana.blogspot.com/2012/01/ganhei-coragem.html

segunda-feira, janeiro 2

Começo do ano, nova cara...inconstâncias

quinta-feira, dezembro 29

Inverno!